terça-feira, 1 de março de 2011

13 - As civilizações antigas

Pessoal, segue um texto das nossas aulas sobre as civilizações antigas e suas origens e características. Ele é uma continuação da postagem 8.

2. A Pré-História

A Pré-História é o período inicial e mais longo da história humana (equivalente a 99% dessa história). Durante toda a sua duração, as sociedades eram ágrafas (sem escrita) e, de uma maneira geral, simples ou primitivas em termos de tecnologia e organização econômica, social e política (predomínio da subsistência, pouca diferenciação social, ausência do Estado). Nesse sentido, a Pré-História é o período anterior às civilizações.

O começo da Pré-História está situado por volta de 2,5 milhões de anos atrás (aparecimento do gênero homo na África), mas seu término, simbolizado pelo aparecimento da escrita, varia dependendo da sociedade em questão e de sua localização geográfica. No Oriente Próximo (Ásia Ocidental e Egito) ela se encerrou por volta de 3000 aC, data mais utilizada na periodização tradicional.

3. A Idade Antiga ou Antiguidade (c. 3000 aC – 500 dC)

De acordo com a divisão tradicional da história, a Idade Antiga ou Antiguidade é a época das primeiras civilizações, entendidas como sociedades complexas com cidades e Estado. As civilizações antigas emergiram em momentos diferentes nas diversas partes do mundo: na Mesopotâmia (atual Iraque) e no Egito em 3000 aC, no Peru (Norte Chico) em 2700 aC, na ilha de Creta (sul da Grécia) em 2600 aC, no Paquistão-Índia em 2600 aC, na China em 2100 aC e no México em 1200 aC.

3.1 As origens das civilizações
    
O aparecimento da civilização foi o acontecimento mais importante da história da humanidade nos seus últimos cinco mil anos. Evidências arqueológicas sugerem que as civilizações foram formadas a partir da evolução social e cultural das comunidades tribais e das chefias agrícolas pré-históricas. Na Mesopotâmia e no Egito, isso parece ter acontecido entre 4500 e 3000 aC; no Mediterrâneo Oriental, inclusive na Grécia, entre 3500 e 2000 aC.

O aumento da produção de alimentos e o crescimento demográfico nas sociedades pré-históricas foram os fatores que condicionaram essa evolução. Ambos permitiram:

■ Uma maior divisão de trabalho (especialização de tarefas)

■ O avanço tecnológico, sendo o aparecimento da metalurgia a mais visível das novas técnicas, até então restritas a instrumentos de pedra, madeira e osso

■ A estratificação social (as comunidades pré-históricas, relativamente igualitárias, ficaram mais divididas em grupos sociais com diferenças de riqueza e de privilégios)

■ A construção de grandes templos (resultado do desenvolvimento de conhecimentos mais avançados de geometria, engenharia e arquitetura)

■ A formação de cidades, com habitantes que deixaram de produzir alimentos e passaram a se dedicar às atividades urbanas, como o comércio e artesanato especializado

■ O desenvolvimento do comércio, sobretudo de alimentos, matérias-primas (metais, madeira) e artesanato de luxo

Uma elite de administradores, guerreiros e sacerdotes assumiu a liderança dessas comunidades do final da Pré-História, muitas vezes com funções e privilégios hereditários, transformando-se em uma camada social superior, detentora do poder político, militar, religioso e econômico. Instituições de governo e leis foram estabelecidas e um aparelho de Estado emergiu com cargos monopolizados pela elite dirigente, em geral de forma hereditária, acompanhados de privilégios derivados do prestígio de suas funções.

Dependendo do caso, essas transformações foram seguidas, e talvez mesmo determinadas, por guerras de disputa por recursos naturais, pela criação de santuários religiosos integrando comunidades até então separadas ou pelo estabelecimento de uma liderança centralizadora na organização de obras públicas. Em um fenômeno que foi chamado de revolução urbana, as cidades emergiram como os principais centros do comércio, do governo e da religião. Necessidades contábeis e administrativas geradas pela maior complexidade social levaram à invenção de formas primitivas de registros de dados e de informações, originando a escrita. A revolução urbana foi, assim, uma fase de transição das sociedades pré-históricas para as civilizações. No Velho Mundo, essa transição costuma ser situada na Idade dos Metais, mais precisamente entre o final da Idade do Cobre e o início da Idade do Bronze (no Oriente Próximo, no 5o e 4o milênio aC).

Os núcleos civilizacionais tendiam a irradiar o seu poder e cultura pelas regiões vizinhas, de forma pacífica (comércio) ou violenta (guerras de conquistas) – processo que costuma ser chamado de difusão, contribuindo para a formação de novas civilizações com características próprias.

3.2 Características das civilizações antigas 

As civilizações antigas, como as das épocas posteriores, foram caracterizadas pela diversidade lingüística, cultural, política, social e econômica, sendo difícil enquadrá-las em um único modelo de sociedade. Mas é possível identificar nas civilizações da Antiguidade alguns traços comuns presentes também nas sociedades medievais.

Em uma caracterização bem genérica e simplificadora, as civilizações antigas podem ser classificadas como civilizações agrárias, com sociedades tradicionais, arcaicas ou pré-modernas (pré-industriais, patriarcais, estratificação em classes e estamentos com baixa mobilidade social, forte religiosidade). Elas também podem ser consideradas pré-capitalistas (maioria da população formada por camponeses que não dependiam de salários, intenso uso do trabalho compulsório pela classe dominante, constituída por uma aristocracia detentora de terras e privilégios políticos).

Economia agrária ou pré-industrial

Nas civilizações antigas a terra era a principal riqueza e a agricultura e o pastoreio eram as atividades econômicas mais importantes. Apesar da urbanização, a sociedade era mais rural do que urbana, com a maioria da população vivendo no campo (aldeias). Não existia indústria mecânica (máquinas/maquinofatura). A produção industrial era baseada no artesanato, com uso do trabalho manual/braçal, predominando aa energia humana/animal. No campo, os trabalhadores praticavam a agricultura e o pastoreio combinados com o artesanato rústico. O artesanato especializado era mais típico das cidades (metalurgia, cerâmica e tecelagem de luxo). Matérias-primas agrícolas e minerais eram os principais bens comercializados.

Estratificação social mais rígida do que no capitalismo

Além da divisão em classes sociais (a partir de diferenças de renda e propriedade), havia uma hierarquização formalizada por uma divisão estamental em ordens (grupos sociais hierarquizados com privilégios/direitos baseados no parentesco ou na função reconhecidos pelos costumes e leis). A mobilidade social era relativamente mais baixa. As elites dirigentes tinham o poder político baseado no controle das terras, funções burocráticas ou religiosas. As civilizações antigas eram também sociedades patriarcais, com famílias e, em geral, o poder político, dominadas pela autoridade paterna ou masculina.

Uso generalizado do trabalho compulsório

A principal forma de trabalho utilizado pela classe dominante era o trabalho forçado exercido pela coerção extra-econômica (jurídico-política): a violência, as leis e o Estado obrigavam o indivíduo a trabalhar para outra pessoa. Duas modalidades genéricas de trabalho compulsório foram utilizadas nas civilizações antigas: a servidão, com um trabalhador semilivre ou dependente possuindo alguns direitos, acesso à terra, meios de produção e família, mas obrigado a produzir excedentes para um senhor ou para o governo; e a escravidão, baseada na exploração de um escravo – um trabalhador sem liberdade, considerado objeto, propriedade e mercadoria de um senhor

Predomínio do trabalho não-assalariado

Além do trabalho compulsório, o trabalho mais comum era o de camponeses juridicamente livres (proprietários ou arrendatários) e artesãos independentes, que trabalhavam de forma autônoma, não precisando de um emprego em troca de salário.

Economia de mercado limitada

Nas civilizações antigas, o desenvolvimento urbano, comercial, monetário e financeiro era muito inferior ao do capitalismo. Por serem sociedades pré-industriais, havia uma forte limitação tecnológica na produção, no armazenamento, no transporte e nas comunicações. O predomínio do trabalho não-assalariado também limitava a monetarização (uso de moeda), a circulação de mercadorias e o seu consumo. As cidades eram os principais centros comerciais e consumidores, mas a maioria da população vivia no meio rural, onde predominava o trabalho não-assalariado, de forma que a moeda circulava mais entre as elites.

Forte religiosidade

Nas antigas civilizações, não havia separação entre política e religião. A religião predominava na explicação dos fenômenos da natureza e da história, e, em muitos casos, justificava a ordem social e política. Três modalidades de religião organizada (com templos, sacerdotes e rituais) existiram nas civilizações antigas:

Politeísmo. A crença na existência de várias divindades. O politeísmo predominou na Antiguidade.

Monoteísmo. A crença na existência de uma única divindade. O monoteísmo foi exceção na Antiguidade. Um forma de monoteísmo surgiu brevemente no Egito durante o reinado do faraó Amenhotep IV (Amenófis IV) ou Akhenaten (século XIV aC) com o culto oficial do deus Aten. Mas foi entre os hebreus que surgiu a primeira modalidade permanente de monoteísmo: o javismo, com o culto a Javé ou Iavé (YHWH), criado pelos israelitas (agrupamento tribal de hebreus) no II milênio aC, na Palestina. A tradição afirma que o culto foi estabelecido por Abraão, líder ou patriarca considerado o ancestral dos israelitas, dos ismaelitas (antepassados dos árabes) e de diversos outros povos de língua semita do Sinai, da Palestina, da Jordânia e da Península Arábica. O monoteísmo israelita parece ter sido uma evolução de uma monolatria (adoração de um único deus, sem excluir a existência de outras divindades que foram deixando de ser cultuadas). A essência do culto javista foi o pacto ou aliança sagrada entre Deus (Javé) e Israel (a nação ou conjunto dos israelitas). Em troca de uma rigorosa obediência a Deus (suas Leis ou instruções divinas, sendo o monoteísmo a mais importante delas), os israelitas receberiam sua proteção e um território (a Terra Prometida, identificada com Canaã, atual Palestina). O javismo foi o principal fator de unidade e identificação étnica dos israelitas: Javé virou o deus nacional de Israel e os israelitas o povo escolhido ou eleito por Deus. Por volta do ano 1000 aC, Jerusalém virou a capital do antigo Estado de Israel, adquirindo um caráter de cidade sagrada, sobretudo com a construção de um grande templo pelo rei Salomão. No primeiro milênio aC, o javismo passou por diversas adaptações, acompanhando as vicissitudes políticas do Estado israelita. No século X aC, os israelitas ficaram divididos em dois reinos: Israel no norte (capital Samaria) e Judá no sul (capital Jerusalém). Os assírios destruíram Israel no século VIII aC. Judá sobreviveu precariamente por mais dois séculos, transformando-se no principal herdeiro das tradições monoteístas do javismo. O termo judeu, inicialmente referente ao habitante de Judá, passou a ser sinônimo do seguidor do monoteísmo javista. No século VI aC, os babilônios conquistaram Judá e destruíram o templo de Jerusalém. Muitos judeus foram enviados para a Babilônia (o “Cativeiro da Babilônia”), mas uma parte deles retornou a Jerusalém, em 538 aC, depois que os persas conquistaram o império babilônico. Foi no retorno do exílio que ocorreu uma grande renovação religiosa, levando o javismo a se transformar no judaísmo – a religião monoteísta da Lei ou Torá (a lei sagrada vista como dádiva de Deus), baseada nos livros do Tanakh, os principais textos religiosos judaicos que, com variações, corresponde ao Antigo Testamento da Bíblia cristã. De acordo com o judaísmo, toda a vida do povo judeu é determinada pela Lei que, sendo rigorosamente seguida, permitirá a salvação. O resultado foi o desenvolvimento de um monoteísmo ético (crença em um único Deus que exige determinada conduta de comportamento do indivíduo nas relações humanas). O conhecimento, exposição e interpretação da Lei passou a ser feito nas sinagogas. O Templo foi parcialmente reconstruído e seu sumo-sacerdote virou o líder religioso da comunidade judaica. No século II aC, os judeus conseguiram recuperar por breve tempo sua soberania, até serem dominados pelos romanos no século I aC. A dominação estrangeira (persa, greco-macedônica e romana) gerou uma profunda crise espiritual entre os judeus, divididos em facções religiosas. Nesse contexto ganhou força a idéia da vinda de um Salvador divino – um rei ungido (messias), descendente de Davi, o mais popular monarca da antiga monarquia israelita unificada. Esse Salvador libertaria os judeus da dominação estrangeira e restauraria a glória de Israel. O judaísmo originou duas outras religiões monoteístas: o cristianismo e o islamismo. As três religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo) são chamadas de religiões abraâmicas, quer dizer, derivadas do culto de Javé estabelecido por Abraão.

Dualismo. A crença na existência de dois princípios antagônicos ou complementares. Concepções dualistas baseadas na oposição entre o bem e o mal encontram-se no zoroastrismo ou mazdeísmo, antiga religião criada pelo profeta Zarathustra ou Zoroastro, no Irã (Pérsia), em data incerta (séculos VII-VI aC, mas talvez bem antes, no 2o milênio aC). O livro sagrado dessa religião é o Avesta, que contém hinos (Gathas) atribuídos a Zarathustra. De acordo com o zoroastrismo, existe um único Deus, bom e criador, essência da verdade e da justiça – Ahura Mazda ou Ormuz. Contudo, ele e sua obra (a ordem cósmica e natural, incluindo a humanidade) enfrentam a oposição de Angra Mainyu (Ahriman), o “Espírito Maligno” e destruidor, fonte da mentira e do caos. O universo é o palco do confronto entre essas duas forças, sendo Ahura Mazda auxiliado por anjos-guerreiros (ahuras) enquanto Angra Mainyu conta com o apoio de demônios (daevas). Cabe a cada ser humano decidir a quem apoiar e arcar com as conseqüências da sua escolha. A vitória dessa luta dualista será de Ahura Mazda, com a última batalha liderada por um Salvador (Saoshyant) que resultará no Juízo Final, na ressurreição dos mortos, na recompensa dos bons com o Céu, na punição dos maus com o inferno e na renovação do universo. O zoroastrismo foi uma das primeiras religiões (possivelmente a primeira) a desenvolver uma escatologia – doutrina sobre o final dos tempos, a partir de uma visão linear da história. Muitas das idéias do zoroastrismo foram incorporadas nas religiões abraâmicas.

Formas de Estado

Nas antigas civilizações agrárias não existiu uma única forma de Estado. As três modalidades universais de organização política com instituições complexas (governo, justiça) podiam ser encontradas na Antiguidade: o Micro-Estado ou cidade-estado, o Macro-Estado nacional e o Estado imperial (império).

Veja na postagem 8 mais informações sobre as modalidades de Estado e sobre os conceitos de civilização, estratificação social e trabalho compulsório.

Sugestões de leituras. Em português existem poucas obras sobre as origens das civilizações. Entre elas, as mais famosas são dois livros de Gordon Childe: A Evolução Cultural do Homem (Zahar Editores, 1978) e O Que Aconteceu na História (Zahar Editores, 1977). Veja também o livro de Robert J. Braidwood, Homens Pré-Históricos (Editora da UnB, 1985). Em inglês, o The Atlas of Early Man, de Jacquetta Hawkes (St. Martin’s Press, 1993) e Past Worlds: The Times Atlas of Archaeology, de Christopher Scarre (Times Books, 1988), tem excelentes ilustrações. De leitura fácil e conteúdo abrangente, o People of the Earth: An Introduction to World Prehistory, de Brian M. Fagan (Longman, 1998), é um dos melhores manuais sobre o assunto.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

12 - A Revolução Egípcia (II)


(Vejam a postagem 11)

Pessoal, mais um texto interessante sobre a crise política do Egito, agora contextualizando os acontecimentos do país no conturbado cenário do Oriente Médio das últimas três décadas. O texto tem vários links. Também está na Veja digital (www.veja.abril.com.br) e saiu no dia 2 de fevereiro de 2011.

Mundo árabe: constantes revoluções, mas sem democracia

O mundo árabe vive, nos últimos dias, uma onda de protestos antigoverno iniciada a partir da Revolução do Jasmim, na Tunísia. Lá, os manifestantes conseguiram tirar do poder o ditador Zine El Abidine Ben Ali, que comandava o país há 23 anos. Foi o estopim para que populares saíssem às ruas no Egito, Iêmen, Argélia, Sudão e Jordânia. Não é a primeira vez que revoltas populares fazem a história dar um de seus saltos à frente nos países islâmicos. Mas, em regiões com histórico tão delicado, a fúria das ruas faz emergir o risco de ascensão dos fundamentalistas.

Um dos ápices do furor revolucionário no Oriente Médio foi a derrubada da monarquia e a criação da primeira república islâmica no Irã, em 1979. Como resultado dessa revolução, o Irã é hoje o único país da região absolutamente teocrático, ou seja, dirigido pelo clero muçulmano a partir não de leis votadas em parlamento, e sim das regras do Corão. O regime permitiu que radicais como Mahmoud Ahmadinejad chegassem à Presidência. Eleito em 2005 com o voto dos miseráveis da periferia das cidades iranianas, Ahmadinejad costuma chocar o mundo com suas ameaças verbais e demonstrações de força.

Ao fraudar pateticamente as eleições iranianas para reeleger-se, em 2009, Ahmadinejad deu início a uma outra onda de protestos que agitou o mundo árabe. Naquele ano, porém, a violência das forças de segurança conseguiu conter a fúria dos manifestantes. Ao menos 10 jovens morreram pelas mãos da polícia durante as manifestações – entre eles Neda, a garota que se tornou símbolo da truculência dos regimes autoritários. Ela foi morta com um tiro na cabeça diante das câmeras em um protesto. As manifestações no Irã tornaram-se o mais extraordinário exemplo das potencialidades do Twitter. Muitos iranianos recorriam à rede para organizar protestos e denunciar abusos do governo. O movimento chegou a ser saudado como “revolução do Twitter”.

Em 2005, foi a vez do Líbano ser palco de manifestações da vontade popular no mundo árabe. Pela primeira vez, a palavra intifada – rebelião, em árabe – foi usada nessa parte do mundo para caracterizar um movimento inteiramente pacífico. Pela primeira vez, enormes massas saíram às ruas pedindo o básico em boa parte do planeta, mas mercadoria escassa entre seus vizinhos: liberdade, soberania, justiça. Pela primeira vez, guiadas pelo mais arrebatado realismo, pediram – e conseguiram – o impossível: a retirada das tropas sírias que entraram no país em 1976. O país, porém, vive numa corda bamba constante na tentativa de equilibrar as variadas facções religiosas e políticas que se estabeleceram desde a guerra civil de 1990. Ronda o Líbano também o perigo de ascensão do Hezbollah, o cada vez mais poderoso movimento político, religioso e militar dos radicais xiitas.

Assim como se viu na Tunísia, a onda de manifestações no Líbano deu origem a uma série de outras. No Iraque, o protesto não foi na porta da embaixada americana, mas na da Jordânia, acusada de facilitar a entrada no país das ondas de suicidas que, em nome da guerra aos Estados Unidos, trucidam diariamente civis iraquianos. No Catar, viu-se um ato de repúdio ao terrorismo, permeado por frases singelas como: “Residentes estrangeiros, nós amamos vocês”. As manifestações tiveram resultados, ainda que tímidos – eleições presidenciais pluripartidárias, mas não muito, no Egito e modestas eleições municipais na Arábia Saudita.

As fronteiras do mundo árabe foram riscadas na areia depois da I Guerra. A mistura mal costurada de tribos, povos, religiões nunca foi fácil de administrar. Talvez a solução esteja na democracia, sistema político que não experimentaram. A derrubada de um regime autoritário, contudo, infelizmente não garante que a ele se sucederá uma democracia com direitos e liberdades universais. Com a falência do nacionalismo laico e a quase inexistência de correntes identificadas com as tradições democráticas, o Islã politizado é praticamente a única alternativa hoje existente na vasta maioria do mundo muçulmano.

11 - A Revolução Egípcia (I)

Pessoal, seguem dois textos bem interessantes sobre os últimos acontecimentos no Egito. O primeiro texto trata da Irmandade Muçulmana, o principal grupo de oposição ao (ex) regime de Mubarak. O segundo texto é uma entrevista com o escritor egípcio Tarek Osman. Ambos saíram na edição eletrônica da Veja do dia 22 de fevereiro de 2011 (www.veja.abril.com.br)

Texto I
Irmandade Muçulmana: os fundamentalistas contra Mubarak
Maior e mais antigo grupo de oposição do Egito diz ter abdicado da violência, mas alguns membros continuam a apoiar terroristas pelo mundo árabe
Em 18 dias de intensos protestos nas ruas do Egito, representantes do grupo Irmandade Muçulmana fizeram coro com outros manifestantes pedindo a renúncia do presidente do país, Hosni Mubarak. No dia 11 de fevereiro, a "voz das ruas" prevaleceu e o ditador renunciou, deixando nas mãos do Exército a tarefa de governar até as eleições e abrir caminho para um regime democrático no país. Diante do receio dos ocidentais de que os fundamentalistas ameaçariam tal transição, membros da Irmandade afirmaram que não apresentarão um candidato à Presidência, porém anunciaram a formação de um partido político. Mas, afinal, em que consiste o movimento, quem são seus integrantes e qual sua força e participação nos recentes protestos?

A Irmandade Muçulmana é a maior e mais antiga organização islâmica do Egito e principal grupo opositor ao governo de Mubarak - apesar de nunca ter chegado a ser de fato um partido político. Fundado por Hassan Al Banna, em 1928, com o objetivo de espalhar os preceitos do Islã, o movimento teve suas ideias disseminadas rapidamente e, no fim da década de 1940, estimava-se que possuísse 2 milhões de seguidores no Egito. Logo o movimento ganhou ramificações em outras nações árabes, como a Síria e o Iraque. Em meados da década de 1950, a ascensão do teólogo Sayyid Qutb como liderança pôs a Irmandade Muçulmana na trilha do radicalismo. Qutb foi e continua sendo inspiração para grupos como o Hamas (palestino), o Hezbollah (libanês), e mesmo para a rede terrorista Al Qaeda - organizações às quais a Irmandade presta ajuda financeira.
Apesar de seus porta-vozes afirmarem ter adotado o caminho da moderação e da renúncia à violência, o movimento desperta temor e desconfiança no Egito e no Ocidente. Enquanto diz apoiar princípios democráticos, um de seus objetivos ainda é criar, gradualmente, um estado regido pela lei islâmica da Sharia. Seu mais conhecido slogan é: “O Islã é a solução”. Banido várias vezes pelo governo egípcio ao longo da história, o grupo ainda assim se infiltrou no parlamento com candidatos independentes que defendiam, além da liberalização da legislação partidária, a instauração das leis islâmicas no país. Na década de 1980, com a chegada de Mubarak ao poder, a Irmandade apostou em alianças com o partido Wafd, em 1984, e com os partidos dos trabalhadores e dos liberais, em 1987, tornando-se a principal força de oposição no Egito. Porém, em todos esses anos, assim como nos subsequentes, não conseguiu aprovar projetos de seu interesse.
Apenas nas eleições de 2005 o grupo voltou a ganhar expressão, alcançando a sua melhor marca: candidatos aliados independentes ganharam 20% das cadeiras da Assembléia Nacional. Embora não representasse uma ameaça imediata, diante das rigorosas leis impostas por Mubarak, o resultado surpreendeu o presidente por demonstrar a força do movimento. O governo logo lançou mão de novas medidas contra a Irmandade, detendo centenas de seus membros e instituindo um conjunto de reformas legais para sufocá-la. A constituição foi reescrita para estipular que nenhum tipo de atividade política poderia ser baseada na religião. Candidatos independentes foram proibidos de concorrer à presidência, e leis deram vastos poderes às forças de segurança para deter pessoas e desfazer reuniões políticas. Nas eleições parlamentares de novembro de 2010 (certamente manchadas por fraudes), 80% das cadeiras da Assembléia ficaram com o partido governista. A Irmandade não conseguiu um assento sequer.
Apoio e adesão - Sufocados por décadas de repressão, os grupos opositores possuem uma base popular restrita no Egito. Já a Irmandade Muçulmana, embora ilegal e com menos importância do que no passado, tem grande apoio entre as massas. Segundo Carrie Rosefsky Wickham, professora do departamento de Ciências Políticas da Universidade de Emory, em Atlanta, a aprovação popular do grupo estaria entre 20 e 40% - embora não existam dados oficiais que comprovem os números.
Em entrevista ao site de VEJA, o neto do fundador do movimento, Tariq Ramadan, afirma que a Irmandade não é um todo coeso. Ela abriga tradicionalistas da primeira geração, reformistas seduzidos pelo exemplo da revolução turca e radicais que desejam a imposição do islã pela violência. “Por trás da fachada de uma organização unificada e hierarquizada, existem linhas contraditórias, e não há um prognóstico fechado para o futuro do movimento”, diz ele.
Carrie e Ramadan concordam na avaliação de que a Irmandade não espera assumir o poder no curto prazo. "O repúdio à corrupção do regime de Mubarak era de fato um dos motores do movimento e, para se ver livre desse regime, a Irmandade buscará, ao menos num primeiro momento, partilhar o poder com outros grupos representativos da sociedade egípcia", diz Carrie. De acordo com Ramadan, as alas moderadas do movimento querem participar processo político e ter um papel no período de transição, mas sabem que não possuem representatividade suficiente para assumir o poder no momento
Confira a linha do tempo da Irmandade Muçulmana em http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/a-irmandade-muculmana

Texto II

‘É a vez do movimento liberal no Egito’, aposta escritor

Em livro publicado meses antes da queda de Mubarak, o egípcio Tarek Osman previu uma revolução com origem na classe média e liderada pelos jovens

Ao lançar o livro Egypt on the Brink: From Nasser to Mubarak (O Egito por um triz: De Nasser a Mubarak - tradução livre -, da editora da Univerdade de Yale, dos Estados Unidos), em novembro de 2010, o escritor egípcio Tarek Osman não imaginava que uma revolução forte o suficiente para derrubar o presidente Hosni Mubarak aconteceria tão rapidamente. Mas em suas pesquisas históricas encontrou pistas que previam que uma erupção popular estava prestes a ocorrer.

Evitando uma cronologia linear, Osman explora as principais transformações pelas quais o Egito passou desde a queda do rei Farouk, em 1952, passando pelos regimes de Gamal Abdel Nasser (novembro de 1954 - setembro de 1970), Anuar Sadat (outubro de 1970 - outubro de 1981) e Hosni Mubarak (outubro de 1981 - fevereiro de 2011). Dedicada a leigos, esta é uma das poucas obras que abrangem a história atual do Egito, depois que o glamour do país deu lugar à superpopulação e à pobreza.
O Egito tem atualmente mais de 80 milhões de habitantes, sendo que 30 milhões deles estão abaixo da linha de pobreza. O rápido crescimento populacional também explica o rejuvenescimento da população: o país conta com cerca de 45 milhões de jovens de menos de 30 anos. “Se não fossem os jovens, as demonstrações provavelmente não teriam acontecido nessa intensidade”, pontua o escritor, que estudou em universidades americana e italiana. Para ele, “o momento agora não é dos fundamentalistas, mas do movimento liberal no Egito".

Leia a seguir a entrevista com Tarek Osman na íntegra:

Há pistas na história do Egito que explicam os recentes protestos que derrubaram Mubarak?
Houve uma série de fatores que resultou nessa revolta, muitos deles são ligados a uma transformação na classe média. Na era Nasser, esse grupo contava, acomodado, com o apoio econômico de um governo assistencialista. Depois disso, com Sadat e Mubarak, o governo gradualmente começou a mudar sua estratégia econômica, abrindo espaço para a iniciativa privada. Isso levou naturalmente a uma grande transformação na qualidade de vida dos trabalhadores. Sem as garantias empregatícias do governo, setores tradicionais do grupo, como professores, médicos e engenheiros, começaram a sofrer problemas financeiros. Consequentemente, a legitimidade do regime também ficou abalada, reduzindo a tolerância das pessoas em relação àquela aparente democracia em que eles não tinham qualquer participação real.

No seu livro, o senhor dedica um capítulo inteiro aos jovens egípcios, que representam uma grande porcentagem da população do país e foram os protagonistas dos distúrbios. De que forma esse fator demográfico também colaborou para a queda do presidente? 
Eu diria que esse é o ponto mais importante. A população do país praticamente duplicou nos últimos 30 anos. Quando Mubarak chegou ao poder, em 1981, esse número não passava de 45 milhões de pessoas. Hoje, os egípcios já somam mais de 82 milhões, sendo que mais de 45 milhões deles são jovens - todos em busca de se beneficiar nessa transição socio-econômica. O ímpeto de mudanças de uma população tão jovem assim, somado à crescente pressão sobre a classe média e ao questionamento geral sobre a legitimidade do governo, resultou nas recentes revoltas, organizadas pelas redes sociais. Na minha opinião, se não fossem os jovens, as demonstrações provavelmente não teriam acontecido nessa intensidade.

Os opositores ao governo Mubarak sempre foram duramente reprimidos. Por que a população se sentiu forte o suficiente para manifestar com tanta força desta vez?
É importante destacar que não foi a oposição política do Egito, reprimida há décadas, que se movimentou para as manifestações. Quem iniciou a revolução foram cidadãos comuns, especialmente de setores da classe média, representados pelos jovens egípcios, e não por qualquer partido político. Há quem diga que o que impulsionou a revolta foram as eleições parlamentares de novembro de 2010, acusadas de terem sido fraudadas por Mubarak, mas eu acredito que o principal catalisador foi a pressão socio-econômica em cima da classe média, que precisava ser aliviada. 

Como foi a experiência de estar entre os egípcios no dia em que Mubarak renunciou?
Tive muita sorte de não precisar sair do país nas últimas cinco semanas. Foi um momento histórico, além de ter sido bastante inspirador. Principalmente pelo fato de aquelas milhares de pessoas representarem um número enorme de segmentos da sociedade - os manifestantes não estavam à frente de um único grupo ideológico. Acho que por isso a revolta foi tão poderosa a ponto de derrubar um regime.

Seu livro foi lançado em novembro de 2010. O senhor imaginou que uma revolta de tais proporções fosse estourar poucos meses depois?
Se eu dissesse que imaginava, estaria mentindo. Acho que muitas pessoas, inclusive eu, previram uma erupção no Egito, com origem na classe média e liderada pelos jovens. Para mim, isso certamente estava prestes a acontecer, mas quando, exatamente, era difícil de se prever. É certo que a idade de Mubarak estava em nossos pensamentos - ele fará 84 anos -, além dos fatores que já mencionei. Diante de qualquer fraqueza no sistema, certamente se iniciaria uma revolta. O que podemos dizer é que a Tunísia e as últimas eleições parlamentares abriram as portas para essa erupção acontecer.

De que forma a era Mubarak se diferencia das outras passadas, de Nasser e Sadat, em termos democráticos e de participação da oposição? 
O regime foi muito mais aberto economicamente do que o de Nasser, o que foi necessário com o rápido crescimento da população. Pela primeira vez em toda a história, o setor privado no Egito se tornou o maior empregador dos egípcios. Até então, era somente o setor público que empregava. Com isso, as pessoas se tornaram economicamente independentes do regime e, consequentemente, aptas a escutar suas próprias reclamações e a se opor ao governo. O estabilishment que sempre colocou os militares no topo, embora ainda exista, cedeu espaço nos últimos 10 anos também para grandes financiadores, numa sociedade cada vez mais capitalista, o que colaborou para o enfraquecimento do regime. 

O senhor acredita que o Exército cumprirá com suas promessas na transição para a democracia? 
O Conselho Superior das Forças Armadas repetiu três vezes publicamente que vai garantir eleições livres e democráticas. Além disso, os militares têm um enorme respeito em relação aos egípcios. Eles ganharam até mais respeito nas últimas três semanas, pois quase não intervieram nas manifestações e não se opuseram à população. Acho improvável que eles façam algo que abale esse respeito que conquistaram. Se a classe média, especialmente os jovens egípcios, tem um ímpeto para mudanças, com o apoio de outros muitos milhões de pessoas, não acredito que o Exército se oponha a essas aspirações.

No seu livro, o senhor escreve bastante sobre religião. O quão importante ela é para a política no Egito? 
É extremamente importante. Nas últimas décadas, uma série de sectarismos surgiu no Egito. Essas divisões se intensificaram nos últimos dez anos, resultando em violentos confrontos entre segmentos religiosos no país. No primeiro dia de 2011, por exemplo, dezenas de cristãos morreram em Alexandria, em um atentado. Com isso, a sociedade egípcia ficou amedrontada, depois de muitos anos de paz entre cristãos e islâmicos. A classe média, especialmente, por causa das tensões, se tornou mais adepta da retórica nacionalista, deixando de lado a islâmica. Apesar de a Irmandade Muçulmana continuar sendo o maior movimento opositor no país, é importante ressaltar que a revolta que vimos nas últimas semanas foi impulsionada por um nacionalismo secular, e não pelo idealismo islâmico. 

A Irmandade Muçulmana, embora garanta que não apresentará um candidato à Presidência, já anunciou a criação de um partido político após as reformas na Constituição. Quais são as aspirações do movimento, em sua opinião?
O grupo foi por muitos anos o mais organizado e poderoso da oposição egípcia. O fato de que querer formar um partido político era previsível. Porém, a Irmandade Muçulmana não é um grupo coerente e homogêneo, há uma série de divisões dentro dele, e a atitude de cada um é diferente. Da mesma forma em que existem os conservadores, há também milhares de seguidores jovens. Nas eleições de novembro de 2010, essas tensões internas ficaram muito claras. O momento agora, como disse, não é dos fundamentalistas, mas do movimento liberal no Egito.

Existe a possibilidade de o Egito se tornar uma ditadura islâmica como o Irã?
No futuro, vamos ter um partido que represente a Irmandade Muçulmana e o Islã. Ele possivelmente terá uma forte representatividade no Parlamento, mas isso não significa que vai eleger um presidente ou ter um de seus membros como uma poderosa autoridade do país. Atualmente, já se vê muitos outros partidos políticos emergindo, especialmente do movimento liberal. Como o panorama político agora é muito mais aberto e livre, eles poderão se organizar e criar uma concorrência que a Irmandade nunca teve.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

10 - Sociologia na sala de aula

Pessoal, segue uma reportagem da revista Veja (31 março 2010) sobre a introdução das disciplinas Sociologia e Filosofia nas escolas.

Os 8 milhões de estudantes brasileiros matriculados no ensino médio passaram a receber neste ano aulas de sociologia e filosofia - disciplinas que, por lei, se tornaram obrigatórias em escolas públicas e particulares. Com base nas diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Educação, cada estado fez o seu currículo, no qual a maioria dos colégios privados também se espelha em algum grau. A leitura atenta desse material traz à luz um festival de conceitos simplificados e de velhos chavões de esquerda que, os especialistas concordam, estão longe de se prestar ao essencial numa sala de aula: expandir o horizonte dos alunos. Não faltam exemplos de obscurantismo. Para se ter uma ideia, no Acre uma das metas do currículo de sociologia é ensinar os estudantes a produzir regimentos internos para sindicatos de trabalhadores - verdadeiro absurdo. Um dos explícitos objetivos das aulas em Goiás, por sua vez, é incrustar no aluno a ideia de que "a constante diminuição de cargos em empresas do mundo capitalista é um fator estrutural do sistema econômico" (visão pedestre que desconsidera o fato de que esse mesmo regime resultou em mais e melhores empregos no curso da história). Sem dar às questões a complexidade que elas merecem, as aulas abrangem de tudo: no Espírito Santo, por exemplo, a filosofia abarca da culinária capixaba aos ritmos indígenas. Conclui o sociólogo Simon Schwartzman: "Tratadas com superficialidade e viés ideológico, essas disciplinas só tendem a estreitar, no lugar de ampliar, a visão de mundo". [Não deixe de ler a crítica de Simon Schwartzman sobre o currículo de sociologia para o ensino médio no Rio de Janeiro]
O viés presente nas aulas de sociologia e filosofia tem suas raízes fincadas nas faculdades de ciências sociais - de onde saíram, ou a que ainda pertencem, os professores responsáveis pela confecção dos atuais currículos. Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo - e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883). Diz a doutora em ciências sociais Eunice Durham, da Universidade de São Paulo: "Boa parte dessas faculdades propaga apenas panfletos pseudomarxistas repletos de clichês e generalizações, sem se dar sequer ao trabalho de consultar o original". Isso se reflete agora, e de forma acentuada, nos currículos escolares de sociologia e filosofia, criticados até mesmo por quem participou da feitura deles. À frente da equipe que compôs os do Rio de Janeiro, a educadora Teresa Pontual, subsecretária estadual de Educação, chega a reconhecer: "Se criássemos diretrizes distantes demais da realidade dos professores, eles simplesmente não as aplicariam na sala de aula - fomos apenas realistas".
Sob a influência francesa, a sociologia e a filosofia começaram a ganhar espaço no ensino médio brasileiro no fim do século XIX, até se tornarem obrigatórias, ainda que com pequenas interrupções, entre 1925 e 1971. Seu retorno definitivo ao currículo, sacramentado por uma lei aprovada no Congresso dois anos atrás para entrar em vigor justamente agora, era um pleito antigo dos sindicatos dos profissionais dessas áreas. Em 2001, projeto de lei com o mesmo propósito havia passado pelo Congresso, só que acabou vetado pelo então presidente (e sociólogo) Fernando Henrique Cardoso. À época, um parecer do MEC afirmava que os gastos para os estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender à nova demanda. Desta vez, o próprio ministro Fernando Haddad, filósofo de formação, empenhou-se para aprovar o texto. Daqui para a frente, de acordo com um levantamento do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, serão recrutados mais 20 000 professores no país inteiro. Trata-se de algo temerário, segundo alerta o sociólogo Bolívar Lamounier: "Não há tanta gente qualificada para desempenhar tal função no Brasil". A experiência recente das próprias escolas já sinaliza isso. "Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica", conta Sílvio Barini, diretor do São Domingos, colégio particular de São Paulo.
Ao obrigar as escolas a ensinar sociologia e filosofia a todos os alunos, o Brasil se junta à maioria dos países da América Latina - e se distancia dos mais avançados em sala de aula, que oferecem essas disciplinas apenas como eletivas. Deixá-las de fora da grade fixa é uma decisão que se baseia no que a experiência já provou. Resume o economista Claudio de Moura Castro, articulista de VEJA e especialista em educação: "Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil". Em outros países da América Latina, esse tipo de iniciativa também costuma resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda, preponderante nas escolas. Não será desse jeito que o Brasil dará o necessário passo rumo à excelência.