quinta-feira, 10 de março de 2011

15 - A Grécia Antiga (I)

Pessoal, segue um texto meu sobre a Idade do Bronze na Grécia

1. A Grécia antiga: aspectos geográficos e linguísticos

A Grécia original

A Grécia ou Hélade (Hellas) está localizada no sudeste da Europa, na extremidade meridional da Península Balcânica. É um país montanhoso, com litoral bastante recortado e pontilhado de ilhas, principalmente na costa leste, junto ao Mar Egeu. Esse ambiente físico-geográfico exerceu uma grande influência na história dos gregos. As montanhas tendiam a isolar os povoados, contribuindo para a formação de comunidades politicamente independentes. Por outro lado, a proximidade do mar e as inúmeras ilhas favoreceram a navegação e os contatos com outras civilizações do Mediterrâneo Oriental (Ásia Menor, Fenícia, Egito).
      
O antigo mundo grego

Na Antigüidade, o mundo grego ocupava uma área maior do que a da Grécia atual. Pelo menos desde o século XI aC,  a  Grécia  incluía  a  costa  ocidental  da  Ásia  Menor  (hoje  Turquia)  e  uma  parte  da  ilha  de  Chipre. No século V aC, ela  abrangia  o  litoral  do Mar  Negro,  o sul  da  Itália  (Magna Grécia)  e  diversos  outros  pequenos  lugares  no  Mar Mediterrâneo. Em linhas gerais, a natureza desses locais ocupados pelos gregos lembra o meio físico da Grécia atual, favorecendo a reprodução do mesmo estilo de vida. A história da Grécia antiga foi a história desse conjunto de territórios, destacando-se aqueles próximos ao Mar Egeu, o núcleo original e irradiador da civilização grega ou civilização helênica.                           

Os gregos e seus dialetos

   
Os gregos ou helenos viam-se como um povo distinto dos demais, a quem chamavam genericamente de “bárbaros”. Ser grego significava compartilhar uma mesma língua, cultura e estilo de vida diferente dos povos não-gregos. Mas os gregos também reconheciam que, apesar desses traços comuns, eles próprios estavam divididos em três grandes agrupamentos étnico-tribais (ethne), cada um com seu dialeto particular, além de subdivisões menores ou locais – o que contribuiu para o individualismo das cidades-estados e para a fragmentação política do mundo helênico. No I milênio aC, os gregos  classificavam-se  em  três  ramos principais:  jônios  ou  iônioseólios  dórios.  Além desses três, consideravam que os aqueus representavam outro ramo mais antigo do povo grego.

A língua grega (o helênico) faz parte da família lingüística do indo-europeu, que incluiu o latim, o germânico, o eslavo e o iraniano, entre centenas de outras línguas. Para a maioria dos estudiosos, os antepassados indo-europeus dos gregos (chamados de proto-gregos) não seriam nativos da Grécia, mas originários de outra região (norte dos Bálcãs, Ásia Menor ou Armênia, entre outros locais propostos). No II milênio aC, os proto-gregos teriam migrado para a Grécia, dominando ou misturando-se com a população nativa (pré-helênicos, como os pelasgos), mas acabaram se dividindo em agrupamentos com dialetos diferenciados.

2. A periodização da Grécia antiga

A história das antigas civilizações na Grécia costuma ser dividida em cinco períodos baseados na evolução dos padrões artísticos da cerâmica e da escultura, e, principalmente, na ausência, no nascimento, no desenvolvimento e no declínio da polis. Esses períodos são a Idade do Bronze (3000-1100 aC), a Época Homérica (1100-750 aC), a Época Arcaica (750-500 aC), a Época Clássica (500-334 aC) e a Época Helenística (336-146 aC). Em 146 aC, a Grécia foi conquistada por Roma e sua história passou a ser parte da história romana.

3. A Idade do Bronze (3000-1100 aC)

A Idade do Bronze foi o período do aparecimento das primeiras civilizações na Grécia: a civilização cicládica, a civilização minóica e a civilização micênica, chamadas coletivamente de “civilizações egéias”. Essas civilizações não possuíam as características do sistema clássico (cidades-Estados republicanas, noção de cidadania, maior uso de escravos) e estavam mais próximas do modelo oriental de sociedade. No entanto, desenvolveram um politeísmo que foi a base da religião grega das épocas posteriores, cultuando deuses como Zeus, Poseidon e Hera. Além disso, a maior parte das lendas mais famosas da cultura helênica (personagens como Minos, Perseu, Teseu, Édipo, Hércules, Jasão e os Pelópidas, acontecimentos como a Guerra de Tróia), foi situada pelos gregos na Idade do Bronze, que eles consideravam ser uma remota “Idade dos Heróis”. Foi também na Idade do Bronze, segundo as hipóteses mais aceitas, que os antepassados dos gregos chegaram à Grécia.

3.1 As civilizações pré-helênicas

As civilizações cicládica e minóica são consideradas pré-helênicas, quer dizer, desenvolvidas por povos não-gregos.

A civilização cicládica (3000-2000 aC)

A civilização cicládica teve como núcleo as Ilhas Cíclades no Mar Egeu, constituídas, entre outras, pelas ilhas de Andros, Delos, Melos, Mikonos, Naxos e Thera. Nenhum sistema de escrita foi encontrado nessa civilização, que parece ter sido ágrafa. Aparentemente, os cicládios estavam divididos em pequenas unidades políticas espalhadas pelas ilhas. Por suas características insulares, sua civilização pode ter sido a primeira a desenvolver uma grande dependência do comércio marítimo, enriquecendo-se com a distribuição dos seus próprios produtos (obsidiana, mármore, cobre, objetos de metal, gêneros agrícolas) e a redistribuição de produtos de outras regiões (Grécia Continental, Creta, Ásia Menor e, talvez, Síria e Egito). Os estudiosos chamaram esse poder marítimo de talassocracia. Os cicládicos fundaram colônias na Grécia Continental e em Creta, expandindo sua cultura pelo Egeu.

O aspecto mais famoso da civilização cicládica foi a sua arte, principalmente as estátuas de mármore, com figuras humanas estilizadas de forma abstrata e harmônica em tamanhos variados, herdeiras de antiqüíssimas tradições culturais do Neolítico balcânico. Para os padrões atuais, essas estátuas são impressionantemente “modernas”.

Os cicládios exerceram uma grande influência no desenvolvimento da fase inicial da civilização minóica, que acabou se transformando na mais poderosa do Egeu. Por volta de 2000 aC, a civilização cicládica foi, em grande medida, absorvida pela minóica.
  
A civilização minóica (3000-1450 aC)

A civilização minóica ou minoana, baseada na ilha de Creta, tem o seu nome derivado do lendário Minos, monarca que teria reinado em Cnossos, a mais famosa cidade cretense. A civilização minóica começou a se formar em 3000 aC sob influência dos cicládios e do Egito, onde Creta era chamada de Keftiou ou Kefter. Por volta de 2000 aC, palácios começaram a ser construídos em diversos centros da ilha, como Cnossos, Mallia, Faístos e Zakro, que deviam ser sedes de reinos autônomos. Na mesma época, a escrita foi adotada, inicialmente do tipo hieroglífica, substituída a partir de 1900 aC, por uma forma silábica chamada de Linear A. Essas escritas não foram decifradas e não se sabe ao certo que língua elas representavam, o que limita bastante o nosso conhecimento sobre os minoanos.

A fase de maior desenvolvimento da civilização minóica foi chamada de Neopalacial (1700-1450 aC). Nessa época, Creta pode ter atingido 250 mil habitantes e Cnossos, a maior cidade européia da época, devia ter uns 40 mil residentes. Os palácios cresceram e ficaram mais complexos, com paredes maravilhosamente decoradas com afrescos que retratavam a vida cotidiana. As cenas mais famosas são de jovens acrobatas, de ambos os sexos, enfrentando touros em uma espécie de jogo ou ritual (tauromaquia).

É possível que nos séculos XVI-XV aC, Cnossos tenha unificado a ilha ou exercido algum tipo de hegemonia sobre os outros centros de poder minoano. Mas praticamente nada sabemos sobre a organização política e a estrutura social dessa civilização, que os estudiosos consideram ser diferente da polis escravista. A maioria acredita que havia uma monarquia teocrática. Minos, o nome do lendário monarca, talvez fosse um título do governante, como “faraó” entre os egípcios. Assim, teriam existido vários Minos, e não um único personagem. Também foi sugerida a existência de uma modalidade de matriarcado centrada da figura de uma suposta sacerdotisa-mor – hipótese que busca se fundamentar no destaque dado às mulheres nas artes, sobretudo nas imagens que indicam divindades femininas.

No Período Neopalacial, o comércio e a expansão marítima minoana atingiram o auge, estabelecendo uma talassocracia no Mediterrâneo Oriental que superou a dos cicládicos. Com os navios mais avançados do mundo, os minoanos viajavam para o Egito, a Grécia Continental, as ilhas do Egeu (onde fundaram colônias, como em Rodes, Thera e Melos), o Levante ou Canaã (litoral da Síria-Palestina), a Sicília e, talvez, a Península Ibérica. É possível que parte das comunidades gregas, na época menos desenvolvidas do que as de Creta, tenham ficado sob controle dos minoanos.

No século XV aC, os palácios minoanos foram destruídos e os gregos aqueus assumiram o poder em Creta. Não sabemos o que causou esse colapso: catástrofe natural, que enfraqueceu a civilização minóica permitindo sua conquista pelos aqueus, ou um ataque direto de invasores gregos? A explosão do vulcão da ilha de Thera ou Santorini, nas Cíclades, costuma ser apontada como causa do declínio do poder minóico. Thera está localizada a 100 km ao norte de Creta. Nela existia uma riquíssima cidade (atual Akrotiri), ligada aos minoanos. A explosão do vulcão de Thera destruiu Akrotiri, causou um tsunami e a fumaça e cinzas lançadas alteraram o clima do Mediterrâneo. A catástrofe certamente repercutiu nos países vizinhos e pode ter originado a lenda de Atlântida e algumas tradições do Êxodo israelita, como a das Pragas do Egito. Dificilmente Creta escapou dos seus efeitos. Contudo, não há certeza quanto à data da explosão: os geólogos a situam entre 1627 e 1600 aC, os arqueólogos por volta de 1500 aC. No primeiro caso, a data é por demais distante para ter causado a decadência dos minóicos no século XV aC. O segundo caso se encaixa melhor na cronologia do colapso minoano, mas é contestada pela geologia. Na verdade, existem claras deficiências na cronologia do segundo milênio aC, o que complica ainda mais a questão. A data e os motivos da “Queda de Creta” continuam sendo objeto de um intenso debate.

3.2 A civilização micênica

A civilização micênica ou aquéia (1600-1100 aC), na Grécia continental e também em Creta (ocupada pelos aqueus em 1450 aC), foi a primeira civilização desenvolvida pelos descendentes dos proto-gregos que chegaram ao país na primeira metade do II milênio aC ou um pouco antes. De fato, os micênicos utilizaram-se de uma escrita não-alfabética que revela uma forma rudimentar de língua grega (a escrita Linear B).  O nome da civilização vem de Micenas, o mais famoso e poderoso reino aqueu, localizado no sul da Grécia. “Aqueu” era o antigo nome que os gregos davam a si mesmos antes de adotarem o nome de “helenos” (as razões da mudança são misteriosas). O nome aqueu aparece em textos do II milênio aC do Egito (ekwesh) e do Império Hitita na Ásia Menor (ahhiyawa) em referência a povos que viviam na Grécia ou no Egeu.

A civilização micênica parece ter sido fruto de uma evolução das comunidades tribais proto-gregas que se misturaram ou dominaram os centros pré-helênicos, em um processo de fusão cultural de 2000 a 1600 aC. A influência dos minóicos possivelmente contribuiu para a formação da civilização micênica. Posteriormente, os gregos preservaram tradições que falavam de monarcas estrangeiros vindos do Egito (rei Dânao) e da Síria-Palestina (rei Cadmo) que levaram a civilização para a Grécia. Outras tradições também afirmam que a mais famosa dinastia de reis micênicos, a dinastia de Atreu, era de origem estrangeira (Pélops, pai de Atreu, teria vindo da Ásia Menor). Alguns estudiosos crêem que essas lendas retratam acontecimentos reais, desprezados ou negados pela maioria dos historiadores: uma invasão ou migração de uma elite asiática de língua semita, os hicsos, que, depois de dominarem o Egito nos séculos XVII-XVI aC, foram expulsos e fugiram para a Grécia. As lendas de Dânao e Cadmo seriam reflexos desse episódio. Outros defendem a tese que guerreiros indo-europeus, especializados na utilização de carros de combate, invadiram a Grécia a partir da Ásia Menor no século XVI aC, base da lenda de Pelops. Nesses casos, a civilização micênica nasceu a partir da difusão de novas técnicas militares e de organização política de uma elite estrangeira sobre as comunidades da Grécia na Idade do Bronze.

De toda forma, os aqueus ficaram divididos em diversos reinos guerreiros (sendo os principais Micenas, Tirinto, Pilos, Atenas, Tebas e Cnossos aquéia) dominados por poderosos monarcas (wanax) que residiam em palácios-fortalezas, de onde governavam auxiliados por uma burocracia relativamente numerosa. Aparentemente a maioria de sua população vivia em comunidades aldeãs autárquicas (damoi) exploradas pelo Estado, em um sistema onde a propriedade privada da terra era pouco desenvolvida (parte dela pertencia ao palácio, parte era coletiva das comunidades). Os aqueus substituíram os minóicos no controle do comércio marítimo no Mediterrâneo Oriental e desenvolveram sua própria talassocracia. A disputa por terras, centros comerciais e riquezas na forma de saques provavelmente causou diversas guerras locais, como era comum na Antiguidade. Alguns desses conflitos devem ter assumido uma grande dimensão, envolvendo alianças entre os centros micênicos. Foi, possivelmente, o caso da lendária Guerra de Tróia, no século XIII aC (segundo a cronologia mais utilizada), entre uma coligação de reinos aqueus liderados por Micenas, e o reino de Tróia ou Ílion, na Ásia Menor. Os mais famosos heróis das lendas gregas ambientadas na Idade do Bronze lutaram nessa guerra. Do lado dos aqueus, Aquiles, Agamêmnon (rei de Micenas), Menelau, Ulisses, Ajax, Diomedes e Pátroclo. Do lado dos troianos, cujo monarca era Príamo, destacaram-se Heitor, Páris e Enéias, auxiliados pelas amazonas (rainha Pentesiléia) e pelos etíopes (rei Memnon). O pretexto para a guerra teria sido o rapto da rainha Helena, esposa de Menelau (irmão de Agamêmnon), por Páris, filho de Príamo. Depois de dez anos de guerra, Tróia foi tomada pelos aqueus e destruída. 

Em 1200-1100 aC a civilização micênica entrou em colapso, junto com outros importantes centros políticos da Ásia Menor, de Chipre e da Síria-Palestina. Seus palácios foram destruídos ou abandonados, em um processo que parece estar associado às migrações de povos no Mediterrâneo Oriental. Especificamente na Grécia, as migrações envolveram a chegada de grupos tribais dórios, que se instalaram no sul do país (Peloponeso) e em Creta.

3.3 O final da Idade do Bronze

O colapso da civilização micênica encerrou a Idade do Bronze e iniciou a fase arqueológica da Idade do Ferro na Hélade. A destruição dos reinos aqueus foi uma enorme catástrofe que alterou profundamente as estruturas políticas, sociais e econômicas da Grécia pré-clássica: as monarquias despóticas, suas burocracias e a escrita desapareceram, os palácios foram abandonados, o comércio foi interrompido, a economia entrou em recessão, a população diminuiu e os gregos sofreram uma retração no seu modo de vida, criando uma nova civilização, mais pobre materialmente.

4. A Época Homérica (1100-750aC)

O período entre 1100 e 750 aC  foi  chamado  de  “Homérico”  devido  a  importância  das  informações  contidas  nas  obras  do  poeta  Homero  para  a  reconstituição  da  época, que corresponde ao  início  da  Idade  do  Ferro  grega. Outra fonte importante são as obras do poeta Hesíodo. No entanto, o conjunto de dados sobre essa fase da história da Grécia é muito escasso, sobretudo por que a escrita desapareceu com o colapso da civilização micênica em 1200-1100 aC. As obras de Homero parecem ter sido compostas oralmente no século IX, mas, junto com as criações de Hesíodo, só assumiu sua forma escrita quando esta foi restabelecida no século VIII aC. Por essa razão, a Época Homérica costuma ser chamada também de Idade das Trevas – os séculos obscuros da história da Grécia Antiga.  Do ponto de vista arqueológico, tendo como referência o estilo de decoração da cerâmica, essa época pode ser subdividido em três períodos: o Submicênico (1100-1050 aC), o Proto-Geométrico (1050-900 aC) e o Geométrico (900-750 aC).


A obra de Homero

  Homero (século IX ou VIII aC), o mais famoso poeta da Antigüidade, era um aedo (poeta-cantor). São atribuídas a ele a composição oral de dois poemas épicos, a Ilíada e a Odisséia. As duas obras são um marco na formação da cultura ocidental e tornaram-se a principal referência sobre as tradições e a história mais remota da Grécia antiga. Dotadas de uma sofisticação dramática e de uma qualidade sem paralelo para uma cultura iletrada, a Ilíada e a Odisséia serviram de modelo no desenvolvimento de outros épicos na Grécia e em Roma. Os dois poemas retratam a sociedade grega do início da Idade do Ferro, nos séculos IX-VIII aC, sobretudo os hábitos da aristocracia e seus valores (honra, coragem, espírito guerreiro), mas referem-se a fatos ocorridos nos séculos XIII-XII aC, na fase final da Idade do Bronze. A Ilíada tem como foco as ações do herói grego Aquiles e seu confronto com o rival Heitor, príncipe troiano, durante a Guerra de Tróia (c.1200 aC), relatando outros episódios associados a esse conflito. A Odisséia narra as aventuras de Odisseu ou Ulisses, um dos reis gregos que lutou em Tróia, quando retornou para o seu reino em Ítaca, no leste da Grécia. A perseverança de Odisseu diante das dificuldades para voltar para sua casa e retomar sua vida em família é um dos temas mais famosos da tradição cultural helênica.
    
A obra de Hesíodo

  O poeta Hesíodo (século VIII aC) viveu depois de Homero e compôs poesias que pretendiam ser úteis, enquanto a obra  de Homero tinha o objetivo de entreter. A ele são atribuídas duas importantes criações literárias: Teogonia, que trata das origens e genealogia dos deuses e dos ciclos míticos, e Os Trabalhos e os Dias, que descreve preceitos morais e conselhos práticos sobre a agricultura e uma vida honesta na ótica camponesa.

Aspectos gerais do período homérico

   A civilização grega ou helênica da Época Homérica era diferente da micênica, não possuindo mais as características que lembravam o sistema oriental. Embora continuasse sendo também pré-clássica, com a ausência da cidade-Estado republicana e de um escravismo economicamente importante, a sociedade homérica começou a apresentar traços que indicavam uma evolução na direção da polis. Nesse período, a Grécia estava isolada e dividida em pequenos reinos descentralizados, com uma população menor e pouca vida urbana e comercial. A produção era voltada mais para a subsistência.

A Primeira Diáspora Grega (1100-900 aC)

  “Diáspora” significa dispersão. A Primeira Diáspora Grega foi dirigida para a Ásia Menor (atual Turquia), causada pelo deslocamento populacional em razão dos problemas gerados pelo colapso micênico. Foi em meio a esse deslocamento e migrações que se formaram os dialetos iônio, eólio e dório. A diáspora dos séculos XI-X aC resultou na colonização das ilhas e o do litoral da Ásia Menor pelos refugiados ou invasores gregos, que fundaram comunidades independentes no litoral da Ásia Menor (regiões da Jônia, Eólida e Dórida). 

A organização política

  Com a queda dos palácios micênicos, outro tipo de monarquia emergiu na Grécia: a basiléia, chefiada por um basileu (rei), um líder guerreiro visto como mediador entre os deuses e os homens. Não é possível estabelecer com segurança se as basiléias eram hereditárias ou eletivas, mas a antiga autoridade despótica e centralizadora da realeza aquéia desapareceu, e o poder político nos séculos X-VIII aC ficou, na prática, dividido entre o rei e uma aristocracia guerreira. Embora reconhecesse a autoridade suprema do rei (ele próprio membro das famílias aristocráticas), a nobreza guerreira formava um “Conselho dos Notáveis” ou “Anciãos” que orientava o monarca em decisões mais importantes limitando, na prática, o seu poder. Inexistia a noção de cidadania, mas a população costumava se reunir em uma praça descampada (ágora) para escutar as deliberações do basileu ou os debates dos líderes aristocráticos.

A sociedade

A aristocracia homérica. A classe dominante da época era constituída por uma elite de famílias da nobreza também chamada de basileis ou aristoi (“os melhores”), que possuía as principais terras e rebanhos. O basileu que liderava o seu genos (a família extensa aristocrática) era chamado de geronte. A mentalidade da aristocracia homérica era tipicamente guerreira, fundamentada na areté (coragem, honra e excelência) e na busca da fama, adquirida no campo de batalha através da vitória na aristéia, o duelo ou combate individual entre dois basileus, como retratado na Ilíada.

Os grupos não-aristocráticos. A escravidão não predominava na sociedade homérica e tinha um aspecto predominantemente doméstico, sendo pouco empregada na produção. A maioria da população aparentemente era livre, constituída por camponeses (georgois), incluindo trabalhadores dependentes da aristocracia. Os demiurgos eram trabalhadores livres especializados e remunerados, profissionais como os artesãos do metal. Os tetes eram livres e pobres, sem posses, forçados a alugar ou vender sua força de trabalho para sobreviver.
    
A economia

O oikos. Oikos era o patrimônio de um homem livre. O termo oikos originou a palavra “economia” (oikonomia ou “administração do patrimônio”), mas para os gregos ele tinham um significado mais amplo. Além de sua riqueza material (terras, rebanhos, tesouros, construções), o oikos incluía as pessoas que ele dominava (familiares, escravos, trabalhadores dependentes). A extensão econômica e social do oikos variava dependendo do seu proprietário – o oikos de um aristocrata era maior e mais rico do que de um camponês e era a base material e social de seu poder. Na Época Homérica, o comércio e as cidades eram relativamente pouco desenvolvidos, predominando uma economia de subsistência. Nesse cenário, o oikos de um aristocrata ou de um camponês era fundamentalmente uma unidade econômica e social auto-suficiente, que gerava poucos excedentes para serem trocados.

A propriedade da terra. Apesar do caráter pré-clássico da civilização grega na Época Homérica, é possível que uma das principais características da civilização clássica – a propriedade privada do solo – tenha avançado nos séculos X-VIII aC em decorrência do desaparecimento do sistema palacial micênico e seu dirigismo econômico. As terras da monarquia micênica podem ter sido apropriadas pelas famílias mais poderosas (da antiga elite aquéia ou de invasores dórios). As terras coletivas das comunidades aldeãs também podem ter sofrido uma transformação, com parte delas virando propriedade pessoal de lideranças locais, de invasores ou das elites tradicionais. O processo de privatização da terra possivelmente foi variado, com nuances locais, e pode ter mesmo começado ainda na Idade do Bronze. Depois de avançar na Época Homérica, a privatização do solo foi consolidada no período posterior, a Época Arcaica.

A questão da comunidade gentílica

No Brasil, muitos manuais de História consideram que a unidade econômica e social básica da Grécia na Época Homérica era a “comunidade gentílica”, identificada com o genos. De acordo com essa visão, a comunidade gentílica ou genos seria um clã ou agrupamento de famílias que possuíam terras de forma coletiva, voltadas para a subsistência. Essa interpretação foi muito influenciada pelo marxismo, que se baseou em duas obras escritas no século XIX: Ancient Society (1877), de Lewis Morgan, e A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884), de Friedrich Engels. Embora ainda utilizada por parte da historiografia marxista, há muito tempo ela é considerada superada pelos especialistas na Grécia pré-clássica. Terras coletivas ou comunais parecem ter existido na Idade do Bronze (as ktonai kekemenai dos textos micênicos) e é razoável supor que parte delas tenha sobrevivido na Época Homérica e no início da Época Arcaica em algumas regiões da Grécia, desaparecendo posteriormente em um processo pouco claro de privatização. No entanto, está claro que o genos não era um clã que coletivamente controlava o solo, e sim uma família aristocrática extensa, com vários casais (cada um com o seu oikos individual) subordinados a um único chefe ou pater maior.

Sugestões de Leituras. Existem poucos livros em português sobre a Grécia na Idade do Bronze e na Época Homérica. O ponto de partida deve ser O Mundo Grego Antigo – Dos Palácios de Creta à Conquista Romana, de Marie-Claire Amouretti e Françoise Ruzé (Lisboa, Dom Quixote, 1993). Uma interpretação muito influente sobre o impacto do colapso micênico na formação da filosofia grega é o pequeno, mas importante, livro de Jean-Pierre Vernant, As Origens do Pensamento Grego (São Paulo, Difel, 1984). A obra mais famosa e citada sobre a Época Homérica é O Mundo de Ulisses, de Moses Finley (Lisboa, Editorial Presença, 1988). Em inglês, a referência fundamental é a The Cambridge Companion to the Aegean Bronze Age, de Cynthia W. Shelmerdine (Nova York, Cambridge, 2008). Para aprofundar o assunto, dois livros excelentes de Oliver DickinsonThe Aegean Bronze Age (Nova York, Cambridge University Press, 1994) e The Aegean From Bronze Age to Iron Age: Continuity and Change Between the Twelfth and Eighth Centuries BC (Nova York, Routledge, 2007).





terça-feira, 1 de março de 2011

14 - Antiguidade Oriental e Antiguidade Clássica

Pessoal, segue mais um texto das nossas aulas sobre a Antiguidade Oriental e a Antiguidade Clássica. Ele é uma continuação da postagem 13.

4. Antiguidade Oriental e Antiguidade Clássica

Apesar de compartilharem características comuns pré-industriais e pré-capitalistas, com cidades-Estados, Estados nacionais e Estados imperiais, as civilizações antigas também podem ser enquadradas em dois modelos distintos, cada um com aspectos específicos: a Antiguidade Oriental, as civilizações baseadas no sistema oriental (monarquias despóticas teocráticas, maior uso da servidão, forte dirigismo e coletivismo econômico), e a Antiguidade Clássica, as civilizações baseadas no sistema clássico (governos republicanos eleitos, maior uso da escravidão, individualismo e propriedade privada mais desenvolvidos).

4.1 A Antiguidade Oriental

A Antiguidade Oriental foi constituída pelas antigas civilizações do Oriente Próximo (Ásia Ocidental e Egito), do Paquistão-Índia e da China, cada uma delas com suas particularidades lingüísticas e culturais. Na Mesopotâmia, no Egito e no Paquistão surgiram as primeiras sociedades com cidades, Estado e escrita da história, resultado dos desdobramentos da revolução urbana ocorrida no final da Pré-História. Essas três civilizações desenvolveram-se sob uma forte dependência de canais de irrigação e de outras obras hidráulicas associadas às cheias de grandes rios (Tigre Eufrates, Nilo, Indo). Por essa razão, ficaram conhecidas como civilizações de regadio. De uma maneira geral, as sociedades do Oriente Próximo organizadas em Estados territoriais e em impérios caracterizaram-se pelo “sistema oriental”. O sistema oriental foi mais típico nos dois principais centros de civilização do Oriente Próximo – o Egito e a Mesopotâmia – mas ele também existiu em outras sociedades da Ásia, da África e da América Pré-Colombiana. Politicamente ele foi caracterizado pelo Estado teocrático despótico (o “despotismo oriental”), combinando política e religião. Em termos econômico-sociais, o sistema oriental foi caracterizado pelo modo de produção estatal-aldeão.

O Estado despótico teocrático

 A estrutura política considerada típica do sistema oriental era um reino centralizado encabeçado por um monarca absolutista e teocrático (rei divino ou sagrado), considerado responsável pela ordem e o bem-estar dos seus súditos, apoiado por uma burocracia de funcionários administrativos, pelos militares e pelos sacerdotes. Não havia separação entre política e religião – as duas esferas estavam combinadas, com os sacerdotes fazendo parte do aparelho de Estado (combinação do “templo e palácio”). A religião legitimava o poder despótico do monarca. Formas embrionárias desse tipo de regime político existiram nas cidades-Estados do Oriente Próximo, mas ele foi mais típico de Estados nacionais e de Estados imperiais.

O modo de produção estatal-aldeão

Chamado também de modo de produção tributário ou asiático, foi caracterizado pelo dirigismo estatal, pela existência de uma classe dominante burocrática e pela servidão coletiva.
       
Dirigismo estatal. Nas antigas civilizações orientais, o Estado tinha uma grande participação na economia e era o proprietário da maior ou de uma grande parte das terras. A monarquia e sua burocracia eram vistas como uma “comunidade superior”, acima da sociedade, com mais privilégios e direitos sobre os recursos econômicos do reino. O Estado também se destacou na organização de obras públicas, como nos canais de irrigação, apesar de uma grande parte deles ter sido construída e controlada diretamente pelas aldeias.

A nobreza burocrática. A classe dominante nas antigas civilizações orientais era formada pelos grupos que possuíam os principais cargos no Estado e o dirigiam (a alta burocracia ou nobreza de Estado): o monarca e a família real, os comandantes militares, os sacerdotes e grandes funcionários civis. Esses grupos controlavam as terras do palácio e dos templos, e ficavam com a maior parte das riquezas obtidas com os tributos, os arrendamentos de terras públicas e as pilhagens de guerra. 

A servidão coletiva. A maior parte da população nas antigas sociedades do Oriente era constituída por camponeses que viviam em comunidades aldeãs, forçados a produzir excedentes na forma de tributos para o Estado. Os camponeses estavam submetidos coletivamente a uma modalidade de servidão: eram obrigados a pagar impostos in natura ao Estado e a prestar serviços gratuitos (“corvéias”) em obras públicas, no palácio, nos templos etc. Os escravos eram numerosos, utilizados mais na mineração e nos serviços domésticos. No entanto, a escravidão não superou em importância o trabalho servil dos camponeses.

Observações sobre o sistema oriental

O sistema oriental é um exemplo de modelo descritivo criado pelos estudiosos para descrever aspectos centrais das sociedades do Oriente Próximo e de outras regiões e tentar explicar sua dinâmica. Mas essas sociedades foram mais complexas e diversificadas do que o sistema oriental sugere e nem todas se encaixaram plenamente nesse modelo. Nas regiões com uma grande concentração de cidades, o comércio privado e o artesanato mercantil foram mais desenvolvidos, não raramente assumindo importância internacional. Foram os casos da Fenícia (Líbano), da Síria, do sul da Mesopotâmia e do litoral da Ásia Menor (atual Turquia), onde cidades-Estados floresceram. A China e a Índia eram civilizações agrárias com atividades econômicas urbanas que se destacavam pela riqueza e variedade. Contudo, em quase todos os casos, as sociedades da Antiguidade Oriental continuaram sendo fundamentalmente camponesas e acabaram submetidas ao domínio de monarquias autoritárias, que exerceram um grande controle sobre a economia dos seus reinos ou impérios. Nesses aspectos gerais, elas foram caracterizadas pelo sistema oriental.

A Antiguidade Oriental e o Ocidente

Embora seja comum associar o Ocidente às realizações culturais da Antiguidade Clássica (Grécia e Roma), a civilização ocidental também é herdeira de tradições desenvolvidas na Antiguidade Oriental, principalmente no terreno da religião (monoteísmo ético do judaísmo, idéias dualistas e escatológicas do zoroastrismo, conceito de livre-arbítrio). Veja a postagem 13

4.2 A Antigüidade Clássica


A Antiguidade Clássica foi constituída pelas civilizações da Grécia, Etrúria e Roma (e das demais comunidades latinas na Itália Central), que costumam ser vistas como uma das origens mais remotas da civilização ocidental. O Ocidente herdou dos gregos e dos romanos uma série de idéias, valores e padrões culturais, como as noções de cidadania e de república, o racionalismo, a filosofia, o estudo da história, o direito e expressões artísticas na escultura, na literatura e no teatro.

Enquanto os grandes centros de civilização do Oriente Próximo costumam ser descritos em termos de um “sistema oriental”, as civilizações da Grécia, Etrúria e Roma são caracterizadas, em suas linhas gerais, pelo sistema clássico, que alcançou o apogeu nos séculos VII-I aC. Seus principais elementos são a maior importância econômica das cidades e do comércio, o maior desenvolvimento da propriedade privada, o uso mais intenso do trabalho escravo (o chamado modo de produção escravista antigo) e uma organização política baseada nos ideais de cidadania e de governos eleitos e representativos, sem a legitimação religiosa típica das civilizações orientais. Como no caso do sistema oriental, o sistema clássico é um modelo descritivo, uma referência para o estudo das civilizações grega e romana que, apesar de compartilharem elementos comuns, possuíam suas especificidades e diferenças.

a) A estrutura econômica e social clássica

A economia clássica era pré-capitalista e agrária, com um grande desenvolvimento das cidades, do comércio e do conceito de propriedade privada. Apesar da grande importância econômica do setor urbano-mercantil, a terra era o bem mais importante e visado do mundo greco-romano. A agricultura era a atividade da maioria absoluta da população. Os itens mais comercializados na Antiguidade Clássica eram de origem agrícola: trigo, azeite e vinho. As relações sociais estavam baseadas na posse de riquezas, no parentesco, nos direitos políticos e no direito de liberdade.

A aristocracia

A classe dominante no sistema clássico era a aristocracia, constituída pelas famílias tradicionais patriarcais, com mais privilégios políticos, grandes proprietárias de terras e de escravos. A aristocracia liderava contingentes de agregados e dependentes (empregados livres, protegidos) que os romanos chamaram de clientela. O chefe das famílias aristocráticas era o pater (o pai natural ou seu herdeiro masculino), com poderes quase ilimitados. As famílias aristocráticas aparentadas ou unidas por um culto comum formavam associações conhecidas como genos (em grego, plural genoi) ou gens (em latim, plural gentes). Embora o seu poder fosse derivado em grande medida de atividades agrícolas, de uma forma geral a aristocracia clássica residia nas cidades, onde ela tinha mais influência política do que os comerciantes urbanos.

As camadas livres não-aristocráticas

As sociedades antigas da Grécia e de Roma são classificadas como “escravistas” não porque os escravos fossem a maioria da população, mas porque, de uma forma geral, eles foram os principais trabalhadores empregados pela aristocracia durante o apogeu do sistema clássico. Os dados estatísticos são difíceis, mas, possivelmente, a maioria da população era composta por homens livres com status inferior e menos privilégios do que a aristocracia. A maior parte das camadas livres vivia no meio rural e era composta por camponeses pequenos proprietários e arrendatários, muitos dependentes da aristocracia por motivos econômicos ou de auxílio jurídico – fundamentos do clientelismo político. Nas cidades, o contingente de homens livres também devia superar o dos escravos. Os comerciantes constituíam um grupo economicamente importante, mas mesmo os mais ricos, se não fossem da aristocracia, tinham relativamente pouco poder político. Trabalhadores livres eram utilizados em todas as atividades, porém a grande oferta de escravos reduzia as chances de emprego para o não-escravo. O resultado foi a formação de uma expressiva massa de homens livres pobres semi-empregados ou desempregados – um importante fator de distúrbios políticos, muitas vezes fruto de manipulação demagógica por parte de lideranças populares. 

Os escravos

Os escravos constituíam a principal mão-de-obra empregada pela aristocracia em grande parte dos Estados clássicos. Os escravos eram obtidos, geralmente, nas guerras: os inimigos derrotados eram aprisionados e escravizados pelo lado vencedor, que muitas vezes os revendiam para outro povo (o comércio ou tráfico de escravos). Pessoas raptadas por piratas eram também freqüentemente escravizadas e engrossavam as fileiras do tráfico. Outras fontes importantes de escravos na Antigüidade foram o costume dos pais pobres de venderem seus filhos e a prática da escravidão por dívidas – neste caso, uma pessoa livre endividada não conseguia pagar os seus compromissos, o que a tornava escrava do seu credor. É importante notar que a maioria esmagadora dos escravos nas civilizações antigas fora da África subsaariana não era negra, ao contrário do que aconteceu na América nos séculos XVI-XIX. Em geral, eles eram brancos (caucasianos) originários da Europa, Oriente Médio e Norte da África. Não existia na Antigüidade uma ideologia racista que justificasse a escravidão pela cor da pele. Além da escravidão, formas de servidão chegaram a predominar em algumas sociedades clássicas, como em Esparta.                                             

b) A estrutura política clássica

A civilização clássica foi baseada, inicialmente (séculos VIII-I aC), na cidade-Estado clássica (polis em grego, civitas em latim), um Estado constituído por uma comunidade de cidadãos controlando um pequeno território, que manteve a Grécia e a Itália fragmentadas politicamente durante séculos. Os cidadãos eram os indivíduos com direitos e deveres políticos (poder votar, ser eleito e ser proprietário de terras, dever de lutar pela comunidade). Não eram cidadãos as mulheres, os escravos e os estrangeiros.

Regimes republicanos

As cidades-Estados clássicas eram repúblicas (governos eleitos pelos cidadãos e limitados pela lei) com oligarquias e democracias, em uma situação de relativa secularização da política (menor presença da religião na política). Grosso modo, as cidades-Estados republicanas clássicas eram de dois tipos:

Oligarquias: governo de poucos cidadãos, isto é, de uma minoria de cidadãos privilegiados (a aristocracia).

Democracias: governo do “povo”, ou seja, de todos os cidadãos (aristocratas e não-aristocratas).

Em épocas de crise política e de guerra civil surgiam governos pessoais autoritários, muitas vezes com apoio popular. Na Grécia, foi o caso das tiranias, que possuíam um caráter “inconstitucional” ou “ilegal” (o tirano não era eleito e tomava o poder pela força). Em Roma, foi o caso das ditaduras, que eram governos com amplos poderes emergenciais reconhecidos pela lei, quer dizer, previstos na constituição. 

Características gerais das cidades-Estados clássicas

As cidades-Estados clássicas do mundo grego, etrusco e latino possuíam as seguintes características comuns:

Divisão tripartite do Estado. Um pequeno (territorialmente) Estado republicano organizado com três instituições: os magistrados (o governo eleito), o Conselho (eleito ou hereditário, aconselhava o governo e cuidava de alguns casos de justiça) e a Assembléia (reunião dos cidadãos para eleger o governo e votar assuntos de interesse coletivo, como a declaração de guerra)

Ideal de cidadania. Baseado em um espírito de coletividade política, quer dizer, na idéia de que um grupo de pessoas compartilhava os mesmos direitos de eleger e de ser eleito para cargos públicos, e que não deveriam mais ficar submetidos ao poder hereditário de uma única pessoa. 

Participação direta dos cidadãos no processo político. Decisões coletivas a partir da livre discussão e votação nas assembléias compostas pelos cidadãos, sem representantes (deputados), com noção de soberania popular (dos cidadãos)

Inexistência de corporações fechadas como exército e instituições religiosas. Os comandantes militares eram eleitos (muitas vezes constituídos pelos próprios magistrados) e o exército era uma milícia de cidadãos-soldados que se armavam por conta própria de acordo com seus recursos, convocada em época de guerra (Esparta era a grande exceção, possuindo um exército profissional de tempo integral); os sacerdotes eram funcionários do Estado e muitos magistrados possuíam responsabilidades religiosas.

Poder político legitimado pela lei. Baseada nas tradições e costumes antigos (a “constituição ancestral”), transmitidos principalmente pela educação. Era a idéia de que o governo na cidade-Estado clássica é da lei e não do poder pessoal dos homens que governam. Isso enfraqueceu o papel do mito como sustentáculo das práticas de governo, embora não o tenha eliminado. A religião continuou tendo um papel político: existiam cultos oficias das divindades protetoras da cidade-Estado e festivais religiosos que serviam para reforçar a identidade e a unidade da comunidade de cidadãos.

A cidade-Estado clássica entrou em declínio na Grécia no século IV aC e em Roma no século I aC, sendo substituídas pelo Estado imperial (monarquia centralizada dominando vários povos).

Sugestões de leituras. Uma boa comparação entre as civilizações orientais e as civilizações clássicas está em dois livros de Ciro Flamarion Cardoso: Sociedades do Antigo Oriente Próximo (Ática, 1986) e A Cidade-Estado Antiga (Ática, 1987). Para os aspectos gerais da Antiguidade Clássica, veja também Passagens da Antiguidade para o Feudalismo, de Perry Anderson (Brasiliense, 2001).

13 - As civilizações antigas

Pessoal, segue um texto das nossas aulas sobre as civilizações antigas e suas origens e características. Ele é uma continuação da postagem 8.

2. A Pré-História

A Pré-História é o período inicial e mais longo da história humana (equivalente a 99% dessa história). Durante toda a sua duração, as sociedades eram ágrafas (sem escrita) e, de uma maneira geral, simples ou primitivas em termos de tecnologia e organização econômica, social e política (predomínio da subsistência, pouca diferenciação social, ausência do Estado). Nesse sentido, a Pré-História é o período anterior às civilizações.

O começo da Pré-História está situado por volta de 2,5 milhões de anos atrás (aparecimento do gênero homo na África), mas seu término, simbolizado pelo aparecimento da escrita, varia dependendo da sociedade em questão e de sua localização geográfica. No Oriente Próximo (Ásia Ocidental e Egito) ela se encerrou por volta de 3000 aC, data mais utilizada na periodização tradicional.

3. A Idade Antiga ou Antiguidade (c. 3000 aC – 500 dC)

De acordo com a divisão tradicional da história, a Idade Antiga ou Antiguidade é a época das primeiras civilizações, entendidas como sociedades complexas com cidades e Estado. As civilizações antigas emergiram em momentos diferentes nas diversas partes do mundo: na Mesopotâmia (atual Iraque) e no Egito em 3000 aC, no Peru (Norte Chico) em 2700 aC, na ilha de Creta (sul da Grécia) em 2600 aC, no Paquistão-Índia em 2600 aC, na China em 2100 aC e no México em 1200 aC.

3.1 As origens das civilizações
    
O aparecimento da civilização foi o acontecimento mais importante da história da humanidade nos seus últimos cinco mil anos. Evidências arqueológicas sugerem que as civilizações foram formadas a partir da evolução social e cultural das comunidades tribais e das chefias agrícolas pré-históricas. Na Mesopotâmia e no Egito, isso parece ter acontecido entre 4500 e 3000 aC; no Mediterrâneo Oriental, inclusive na Grécia, entre 3500 e 2000 aC.

O aumento da produção de alimentos e o crescimento demográfico nas sociedades pré-históricas foram os fatores que condicionaram essa evolução. Ambos permitiram:

Uma maior divisão de trabalho (especialização de tarefas)

O avanço tecnológico, sendo o aparecimento da metalurgia a mais visível das novas técnicas, até então restritas a instrumentos de pedra, madeira e osso

A estratificação social (as comunidades pré-históricas, relativamente igualitárias, ficaram mais divididas em grupos sociais com diferenças de riqueza e de privilégios)

A construção de grandes templos (resultado do desenvolvimento de conhecimentos mais avançados de geometria, engenharia e arquitetura)

A formação de cidades, com habitantes que deixaram de produzir alimentos e passaram a se dedicar às atividades urbanas, como o comércio e artesanato especializado

O desenvolvimento do comércio, sobretudo de alimentos, matérias-primas (metais, madeira) e artesanato de luxo

Uma elite de administradores, guerreiros e sacerdotes assumiu a liderança dessas comunidades do final da Pré-História, muitas vezes com funções e privilégios hereditários, transformando-se em uma camada social superior, detentora do poder político, militar, religioso e econômico. Instituições de governo e leis foram estabelecidas e um aparelho de Estado emergiu com cargos monopolizados pela elite dirigente, em geral de forma hereditária, acompanhados de privilégios derivados do prestígio de suas funções.

Dependendo do caso, essas transformações foram seguidas, e talvez mesmo determinadas, por guerras de disputa por recursos naturais, pela criação de santuários religiosos integrando comunidades até então separadas ou pelo estabelecimento de uma liderança centralizadora na organização de obras públicas. Em um fenômeno que foi chamado de revolução urbana, as cidades emergiram como os principais centros do comércio, do governo e da religião. Necessidades contábeis e administrativas geradas pela maior complexidade social levaram à invenção de formas primitivas de registros de dados e de informações, originando a escrita. A revolução urbana foi, assim, uma fase de transição das sociedades pré-históricas para as civilizações. No Velho Mundo, essa transição costuma ser situada na Idade dos Metais, mais precisamente entre o final da Idade do Cobre e o início da Idade do Bronze (no Oriente Próximo, no 5o e 4o milênio aC).

Os núcleos civilizacionais tendiam a irradiar o seu poder e cultura pelas regiões vizinhas, de forma pacífica (comércio) ou violenta (guerras de conquistas) – processo que costuma ser chamado de difusão, contribuindo para a formação de novas civilizações com características próprias.

3.2 Características das civilizações antigas 

As civilizações antigas, como as das épocas posteriores, foram caracterizadas pela diversidade lingüística, cultural, política, social e econômica, sendo difícil enquadrá-las em um único modelo de sociedade. Mas é possível identificar nas civilizações da Antiguidade alguns traços comuns presentes também nas sociedades medievais.

Em uma caracterização bem genérica e simplificadora, as civilizações antigas podem ser classificadas como civilizações agrárias, com sociedades tradicionais, arcaicas ou pré-modernas (pré-industriais, patriarcais, estratificação em classes e estamentos com baixa mobilidade social, forte religiosidade). Elas também podem ser consideradas pré-capitalistas (maioria da população formada por camponeses que não dependiam de salários, intenso uso do trabalho compulsório pela classe dominante, constituída por uma aristocracia detentora de terras e privilégios políticos).

Economia agrária ou pré-industrial

Nas civilizações antigas a terra era a principal riqueza e a agricultura e o pastoreio eram as atividades econômicas mais importantes. Apesar da urbanização, a sociedade era mais rural do que urbana, com a maioria da população vivendo no campo (aldeias). Não existia indústria mecânica (máquinas/maquinofatura). A produção industrial era baseada no artesanato, com uso do trabalho manual/braçal, predominando aa energia humana/animal. No campo, os trabalhadores praticavam a agricultura e o pastoreio combinados com o artesanato rústico. O artesanato especializado era mais típico das cidades (metalurgia, cerâmica e tecelagem de luxo). Matérias-primas agrícolas e minerais eram os principais bens comercializados.

Estratificação social mais rígida do que no capitalismo

Além da divisão em classes sociais (a partir de diferenças de renda e propriedade), havia uma hierarquização formalizada por uma divisão estamental em ordens (grupos sociais hierarquizados com privilégios/direitos baseados no parentesco ou na função reconhecidos pelos costumes e leis). A mobilidade social era relativamente mais baixa. As elites dirigentes tinham o poder político baseado no controle das terras, funções burocráticas ou religiosas. As civilizações antigas eram também sociedades patriarcais, com famílias e, em geral, o poder político, dominadas pela autoridade paterna ou masculina.

Uso generalizado do trabalho compulsório

A principal forma de trabalho utilizado pela classe dominante era o trabalho forçado exercido pela coerção extra-econômica (jurídico-política): a violência, as leis e o Estado obrigavam o indivíduo a trabalhar para outra pessoa. Duas modalidades genéricas de trabalho compulsório foram utilizadas nas civilizações antigas: a servidão, com um trabalhador semilivre ou dependente possuindo alguns direitos, acesso à terra, meios de produção e família, mas obrigado a produzir excedentes para um senhor ou para o governo; e a escravidão, baseada na exploração de um escravo – um trabalhador sem liberdade, considerado objeto, propriedade e mercadoria de um senhor

Predomínio do trabalho não-assalariado

Além do trabalho compulsório, o trabalho mais comum era o de camponeses juridicamente livres (proprietários ou arrendatários) e artesãos independentes, que trabalhavam de forma autônoma, não precisando de um emprego em troca de salário.

Economia de mercado limitada

Nas civilizações antigas, o desenvolvimento urbano, comercial, monetário e financeiro era muito inferior ao do capitalismo. Por serem sociedades pré-industriais, havia uma forte limitação tecnológica na produção, no armazenamento, no transporte e nas comunicações. O predomínio do trabalho não-assalariado também limitava a monetarização (uso de moeda), a circulação de mercadorias e o seu consumo. As cidades eram os principais centros comerciais e consumidores, mas a maioria da população vivia no meio rural, onde predominava o trabalho não-assalariado, de forma que a moeda circulava mais entre as elites.

Forte religiosidade

Nas antigas civilizações, não havia separação entre política e religião. A religião predominava na explicação dos fenômenos da natureza e da história, e, em muitos casos, justificava a ordem social e política. Três modalidades de religião organizada (com templos, sacerdotes e rituais) existiram nas civilizações antigas:

Politeísmo. A crença na existência de várias divindades. O politeísmo predominou na Antiguidade.

Monoteísmo. A crença na existência de uma única divindade. O monoteísmo foi exceção na Antiguidade. Um forma de monoteísmo surgiu brevemente no Egito durante o reinado do faraó Amenhotep IV (Amenófis IV) ou Akhenaten (século XIV aC) com o culto oficial do deus Aten. Mas foi entre os hebreus que surgiu a primeira modalidade permanente de monoteísmo: o javismo, com o culto a Javé ou Iavé (YHWH), criado pelos israelitas (agrupamento tribal de hebreus) no II milênio aC, na Palestina. A tradição afirma que o culto foi estabelecido por Abraão, líder ou patriarca considerado o ancestral dos israelitas, dos ismaelitas (antepassados dos árabes) e de diversos outros povos de língua semita do Sinai, da Palestina, da Jordânia e da Península Arábica. O monoteísmo israelita parece ter sido uma evolução de uma monolatria (adoração de um único deus, sem excluir a existência de outras divindades que foram deixando de ser cultuadas). A essência do culto javista foi o pacto ou aliança sagrada entre Deus (Javé) e Israel (a nação ou conjunto dos israelitas). Em troca de uma rigorosa obediência a Deus (suas Leis ou instruções divinas, sendo o monoteísmo a mais importante delas), os israelitas receberiam sua proteção e um território (a Terra Prometida, identificada com Canaã, atual Palestina). O javismo foi o principal fator de unidade e identificação étnica dos israelitas: Javé virou o deus nacional de Israel e os israelitas o povo escolhido ou eleito por Deus. Por volta do ano 1000 aC, Jerusalém virou a capital do antigo Estado de Israel, adquirindo um caráter de cidade sagrada, sobretudo com a construção de um grande templo pelo rei Salomão. No primeiro milênio aC, o javismo passou por diversas adaptações, acompanhando as vicissitudes políticas do Estado israelita. No século X aC, os israelitas ficaram divididos em dois reinos: Israel no norte (capital Samaria) e Judá no sul (capital Jerusalém). Os assírios destruíram Israel no século VIII aC. Judá sobreviveu precariamente por mais dois séculos, transformando-se no principal herdeiro das tradições monoteístas do javismo. O termo judeu, inicialmente referente ao habitante de Judá, passou a ser sinônimo do seguidor do monoteísmo javista. No século VI aC, os babilônios conquistaram Judá e destruíram o templo de Jerusalém. Muitos judeus foram enviados para a Babilônia (o “Cativeiro da Babilônia”), mas uma parte deles retornou a Jerusalém, em 538 aC, depois que os persas conquistaram o império babilônico. Foi no retorno do exílio que ocorreu uma grande renovação religiosa, levando o javismo a se transformar no judaísmo – a religião monoteísta da Lei ou Torá (a lei sagrada vista como dádiva de Deus), baseada nos livros do Tanakh, os principais textos religiosos judaicos que, com variações, corresponde ao Antigo Testamento da Bíblia cristã. De acordo com o judaísmo, toda a vida do povo judeu é determinada pela Lei que, sendo rigorosamente seguida, permitirá a salvação. O resultado foi o desenvolvimento de um monoteísmo ético (crença em um único Deus que exige determinada conduta de comportamento do indivíduo nas relações humanas). O conhecimento, exposição e interpretação da Lei passou a ser feito nas sinagogas. O Templo foi parcialmente reconstruído e seu sumo-sacerdote virou o líder religioso da comunidade judaica. No século II aC, os judeus conseguiram recuperar por breve tempo sua soberania, até serem dominados pelos romanos no século I aC. A dominação estrangeira (persa, greco-macedônica e romana) gerou uma profunda crise espiritual entre os judeus, divididos em facções religiosas. Nesse contexto ganhou força a idéia da vinda de um Salvador divino – um rei ungido (messias), descendente de Davi, o mais popular monarca da antiga monarquia israelita unificada. Esse Salvador libertaria os judeus da dominação estrangeira e restauraria a glória de Israel. O judaísmo originou duas outras religiões monoteístas: o cristianismo e o islamismo. As três religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo) são chamadas de religiões abraâmicas, quer dizer, derivadas do culto de Javé estabelecido por Abraão.

Dualismo. A crença na existência de dois princípios antagônicos ou complementares. Concepções dualistas baseadas na oposição entre o bem e o mal encontram-se no zoroastrismo ou mazdeísmo, antiga religião criada pelo profeta Zarathustra ou Zoroastro, no Irã (Pérsia), em data incerta (séculos VII-VI aC, mas talvez bem antes, no 2o milênio aC). O livro sagrado dessa religião é o Avesta, que contém hinos (Gathas) atribuídos a Zarathustra. De acordo com o zoroastrismo, existe um único Deus, bom e criador, essência da verdade e da justiça – Ahura Mazda ou Ormuz. Contudo, ele e sua obra (a ordem cósmica e natural, incluindo a humanidade) enfrentam a oposição de Angra Mainyu (Ahriman), o “Espírito Maligno” e destruidor, fonte da mentira e do caos. O universo é o palco do confronto entre essas duas forças, sendo Ahura Mazda auxiliado por anjos-guerreiros (ahuras) enquanto Angra Mainyu conta com o apoio de demônios (daevas). Cabe a cada ser humano decidir a quem apoiar e arcar com as conseqüências da sua escolha. A vitória dessa luta dualista será de Ahura Mazda, com a última batalha liderada por um Salvador (Saoshyant) que resultará no Juízo Final, na ressurreição dos mortos, na recompensa dos bons com o Céu, na punição dos maus com o inferno e na renovação do universo. O zoroastrismo foi uma das primeiras religiões (possivelmente a primeira) a desenvolver uma escatologia – doutrina sobre o final dos tempos, a partir de uma visão linear da história. Muitas das idéias do zoroastrismo foram incorporadas nas religiões abraâmicas.

Formas de Estado

Nas antigas civilizações agrárias não existiu uma única forma de Estado. As três modalidades universais de organização política com instituições complexas (governo, justiça) podiam ser encontradas na Antiguidade: o Micro-Estado ou cidade-estado, o Macro-Estado nacional e o Estado imperial (império).

Veja na postagem 8 mais informações sobre as modalidades de Estado e sobre os conceitos de civilização, estratificação social e trabalho compulsório.

Sugestões de leituras. Em português existem poucas obras sobre as origens das civilizações. Entre elas, as mais famosas são dois livros de Gordon Childe: A Evolução Cultural do Homem (Zahar Editores, 1978) e O Que Aconteceu na História (Zahar Editores, 1977). Veja também o livro de Robert J. Braidwood, Homens Pré-Históricos (Editora da UnB, 1985). Em inglês, o The Atlas of Early Man, de Jacquetta Hawkes (St. Martin’s Press, 1993) e Past Worlds: The Times Atlas of Archaeology, de Christopher Scarre (Times Books, 1988), tem excelentes ilustrações. De leitura fácil e conteúdo abrangente, o People of the Earth: An Introduction to World Prehistory, de Brian M. Fagan (Longman, 1998), é um dos melhores manuais sobre o assunto.