quarta-feira, 19 de junho de 2013

37 - As Jornadas de Junho


AS JORNADAS DE JUNHO: UMA VISÃO CRÍTICA

Pessoal, segue abaixo uma adaptação de textos do jornalista Reinaldo Azevedo sobre os protestos dos últimos dias, que chamei de "jornadas de junho" (não sei se outras pessoas também usaram ou usam esse termo, que faz alusão a um episódio da Revolução de 1848 na França). Os textos foram escritos em 18 e 19 junho no site da Veja. Achei a abordagem de Reinaldo Azevedo interessante porque rompe com a visão predominante, simpática aos protestos. A adaptação dos textos ficou longa, mesmo com a omissão de algumas partes, mas destaquei em vermelho os trechos que considerei mais importantes.

TOMADA DE POSIÇÃO

Já escrevi e reitero: eu não apoio ações ou movimentos que tornam o mundo menos livre do que é, menos democrático do que é, menos pluralista do que é. E gente que ousa acreditar que pode impor a sua vontade à força porque tem a ambição de que o seu anseio traduza a vontade coletiva não é nem jamais será da minha turma, ainda que, episódica ou esporadicamente, goste ou desgoste das mesmas coisas que me agradem ou me desagradem. Não posso e não vou chamar a imposição de exercício da cidadania.

PAUTAS DISTINTAS

Em São Paulo e no Rio, o mote principal da manifestação foi a redução das passagens de ônibus. Em Belo Horizonte e em Brasília, falou-se mais dos gastos oficiais com a Copa do Mundo, a despeito das precariedades existentes na saúde e na educação. São pautas distintas, que acabaram se combinando no que seria um movimento nacional. Assim, uma das tarefas postas ao jornalismo é saber, com precisão, para além das perorações encantadas e encantatórias, quem quer o quê e mobiliza quem. Isso ainda não está claro.


Noto que há um esforço para tentar adivinhar as raízes do que seria uma súbita explosão de consciência. Descontentamentos há tempos represados, insatisfações há muito mitigadas teriam vindo à flor da pele, e estaríamos vivendo os nossos dias de Egito ou Turquia. Para tanto, convenham, seria necessário que se caracterizasse, então, ou a ditadura (que nos aproximaria do povo egípcio) ou o regime autoritário à moda turca, que censura a imprensa, impõe a linha justa religiosa, submete a sociedade, paulatinamente, a uma disciplina teocrática. Mas onde estão esses fatores? Na ausência deles, interroga-se se a inflação renitente, o crescimento medíocre, um Congresso que se orienta pelo troca-troca não foram abrindo rachaduras na muralha petista. O protesto contra a passagem de ônibus teria sido, então, a gota d’água que fez romper o dique.

Como já escrevi aqui, peço desculpas, então, pelo meu pessimismo, pela minha desesperança. Em São Paulo, por exemplo, o protesto é mesmo contra a elevação da passagem de ônibus de R$ 3 para R$ 3,20. Um movimento que atuava em parceria com o petismo, o Passe Livre, que tem como pauta principal a aloprada defesa da “tarifa zero”, uniu-se a militantes de extrema esquerda, e os dois grupos organizaram uma série de protestos violentos, que demandaram a, atenção!, justa e correta intervenção da Polícia Militar. Se houve excessos na quinta-feira — e bala de borracha em jornalista não é necessariamente prova disso; é preciso apurar —, que sejam punidos! Mas o fato é que a PM, em regra, combateu baderneiros, incendiários, depredadores. Se eles não representavam o movimento, que este viesse a público para repudiar o vandalismo. Não só não fizeram isso como tiveram o topete de mentir, sustentando que os arruaceiros apenas respondiam à violência policial.

OUTRA ABORDAGEM

Casaram-se três pragas da contemporaneidade, que resultaram nos conflitos que estamos vendo: uma é de alcance quase universal nas democracias; as outras têm uma marca muito nossa, muito própria de Banânia.


Uma das doenças das democracias é a emergência de minorais radicalizadas ou de grupos sectários que reivindicam o direito de impor à coletividade as suas vontades. Confundem a tolerância que devem ter os regimes democráticos com uma ditadura de minorias. Assim, para esses grupos, nada mais natural do que tomar de assalto as ruas ou as instituições e impor uma decisão na base do berro — e, se necessário, da violência. Desculpem-me! Eu não posso esquecer que, há coisa de dois meses, grupinhos de 20 ou 30 pessoas simplesmente impediam o funcionamento da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, com amplo apoio da imprensa — o mesmo com que contou o Movimento Passe Livre. Isso que chamo “fascismo de minoria” é chamado por aí, com impressionante desassombro, de “direito” e “liberdade de expressão”. Não é um mal exclusivo do Brasil.

Já a impunidade tem a nossa cara. Está se tornando corriqueira no país a noção de que desrespeitar a lei para fazer justiça social é mais do que um direito; seria mesmo um dever. Assim, o Movimento Passe Livre e seus companheiros de extrema esquerda só estariam querendo o bem dos paulistanos e dos brasileiros. E por que não poderiam, então, parar a cidade? Afinal, não é isso o que faz, dia sim, dia também, o MST, sem que se lhe advenha qualquer consequência? Não estão aí os índios, com o amparo de Gilberto Carvalho, a invadir terras, a incendiar propriedades, a expulsar proprietários? Outro traço que vai nos definindo como país é a noção de que o estado é o grande provedor de tudo. Logo, perguntam, por que o transporte não pode ser gratuito?

Infelizmente, não vejo em nada disso uma abordagem de resistência, que pudesse ser, de algum modo, útil à democracia, ao estado de direito e mesmo à alternância de poder. Ao contrário: vejo reproduzida em alguns desses episódios a pior mística dos primeiros tempos do petismo, e não é por acaso que a imprensa se tomou de encantos pelo Passe Livre. Eu diria até, atenção para isto!, que também os traços de classe social se repetem. A exemplo dos primeiros petistas, lá do começo dos anos 1980, também o Passe Livre tem a cara, o jeito e o pensamento da elite radicalizada, que se considera dotada de uma consciência superior, com a qual vai civilizar e libertar os oprimidos. É próprio desse estrato social, faça ou não política, tenha ou não “consciência”, achar que a lei existe apenas para os outros.

A POSTURA DA IMPRENSA

A imprensa brasileira, nessa sua fase criativo-cidadã-participativa, deu para criar categorias com as quais pretende corrigir a realidade para justificar a sua militância. Assim, inventa coisas como “cura gay”, “bolsa estupro” e… “maioria pacífica”. Já escrevi sobre as três e vou me ater um pouco mais sobre essa terceira. A “maioria pacífica” designa as pessoas que estão ocupando as ruas contra o aumento da tarifa de ônibus e que não promovem quebra-quebra e saques nem recorrem a coquetéis molotov para dizer o que pensam — e sobretudo o quanto… deixam de pensar. Esses seriam os lhanos, os mansos de espírito, aqueles a quem deveríamos ser gratos, exaltando as suas virtudes democráticas, com expressões como “Que coisa emocionante! Que coisa bonita! Que bacana!” Ontem, mais de uma vez, fui tomado pela vergonha alheia. Raramente ouvi tanta bobagem em prazo tão curto.

As TVs foram tomadas, assim, por um tom missionário. É como se a Dona Maroca estivesse cobrindo os eventos das praças Tahrir e Taksim. À “maioria pacífica”, opor-se-ia a minoria dos baderneiros, os que saem ateando fogo em tudo o que veem pela frente, depredando prédios públicos, quebrando aparelhos urbanos, querendo briga e confronto. Esses seriam os maus. E esses maus, insistem os criadores de categorias, não representariam aquela maioria de pessoas bem-intencionadas.

Trata-se, lamento, de uma fraude intelectual, em primeiríssimo lugar, e de uma fraude jornalística, dela decorrente, que remete também a uma questão que diz respeito ao ordenamento jurídico, que está sendo incendiado nas redações, como o lixo anda a ser incendiado nas ruas.

A distinção bate, de saída, numa questão de lógica elementar. Se a minoria baderneira não representa a maioria supostamente pacífica que está nas ruas, esses dois grupos juntos formam uma minoria que, por seu turno, não representa a maioria das cidades. É simples, é óbvio, é elementar. De resto, nem maiorias nem minorias podem desrespeitar as leis sem que lhe advenham consequências.

QUESTÕES FUNDAMENTAIS

Cabe perguntar:
1: Que diabo de “maioria (da minoria!!!) pacífica” é essa que impede o direito de ir e vir, que se atribui a licença de paralisar as cidades, que acredita poder impor a milhões de pessoas a sua pauta, a sua agenda, os seus métodos de luta?

2: Que diabo de “maioria pacífica” é essa que aceita se reunir com o secretário de Segurança Pública para conversar, mas jamais para negociar? Que aceita se reunir com o prefeito para conversar, mas jamais para negociar?

3: Que diabo de “maioria pacífica” é essa que arranca do secretário Fernando Grella, por exemplo, o compromisso de que não haveria tropa de choque, de que não haveria obstrução de ruas pela polícia, de que não haveria bala de borracha etc., mas que não deu nada em troca? Não aceitou nem mesmo entregar um itinerário para facilitar o trabalho de segurança. São pessoas que agem como se estivessem apartadas da ordem democrática. No Roda Viva, um dos seus arrogantezinhos sugeriu que o que quer aconteça de ruim em São Paulo é de responsabilidade de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad. Afinal, por que eles não revogam o aumento? Bem, uma jornalista e dois “inteliquituais” afirmaram o mesmo ontem…

4: Que diabo de “maioria pacífica” é essa que atribui toda a violência havida na quinta-feira passada à Polícia Militar, sem nem mesmo admitir a parcela de culpa dos vá lá, radicais?

5: Que diabo de “maioria pacífica” é essa que não concede ao prefeito Haddad nem mesmo um prazo, então, para estudar planilhas de custos e, eventualmente, fazer uma sugestão? Não! É tudo ou nada e é agora! Como lembra a professora Janaina Paschoal, num artigo magistral para este blog, eles não sabem ouvir “não” como resposta. Na verdade, eles não sabem ouvir um “talvez”. Birrentos, querem o doce na hora. E fim de papo. Ou é a redução já ou, anunciam, é gente na rua, cidade parada, caos.

AMEAÇA AUTORITÁRIA

Eu tenho uma novidade para os queimadores de Constituição das redações, tratada como se fosse o lixo das ruas. Os bandidos que saqueiam lojas, que depredam patrimônio público e privado, que saem por aí metendo fogo nas coisas incidem numa penca de artigos do Código Penal. Têm de ser presos. Mas esses que vocês chamam “maioria pacífica” violam cláusulas pétreas da Constituição, violam direitos fundamentais.

Esses que estão sendo tratados como heróis por uma penca de más-fés cruzadas (e por muitos inocentes esperançosos) — trato do assunto em outro post — estão estabelecendo novos marcos da luta política no Brasil. Na verdade, trazem para cá, de forma ainda incipiente, táticas filoterroristas que vêm sendo objeto de especulação teórica de alguns chamados neomarxistas, que acreditam que a luta política tem de se dar em duas frentes: a) na desarticulação dos chamados costumes conservadores — e, nesse caso, os principais alvos têm de ser família e a religião (o cristianismo, claro!); b) na desmoralização contínua, permanente, das instituições do estado.

Noto que, até agora, as ditas lideranças de um movimento supostamente sem líderes não vieram a público para condenar o vandalismo. E não vêm por cálculo. Enquanto essa suposta “maioria pacífica” puder contar com os ditos “radicais” como seus aliados objetivos, sempre poderá posar de moderados, ainda que rasgando a Constituição, sob o aplauso quase unânime da imprensa.

CRISE DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA?

Há um engano central em relação a esse movimento, que ignora a sua origem e a sua história. O Passe Livre, meus caros leitores, não é uma associação que luta por indivíduos mais livres, mais autônomos, mais independentes do estado. Ao contrário: do que dá para perceber de sua concepção de sociedade — e se pode ter uma sem que se tenha clareza disso —, os valentes querem outra coisa. Anseiam por uma democracia tutelada por movimentos sociais organizados, que arrogam para si o direito da representação sem passar pelo ritual das eleições. E, POIS, DEMOCRACIA NÃO É.

À diferença do que se diz por aí, a crise está menos na democracia brasileira, na classe política ou nos Poderes — como se tornou hábito repetir bovinamente, na imprensa inclusive — do que nos instrumentos de análise e de percepção da realidade. Se existe uma crise, ela é de natureza intelectual, isto sim!, de parâmetros. Esse mal-estar, prefiro chamá-lo assim, contamina hoje a academia — o pensamento propriamente — e a imprensa. Perderam-se referenciais e valores do que sejam sociedade livre e representação. Essa conversa de que a redução da tarifa é apenas a face visível de um malaise mais profundo — onde se esconderiam repúdio à corrupção, aos desmandos, à gastança irresponsável do governo — traduz mais uma esperança do que um fato. Lamento, mas entendo rigorosamente o contrário.

A bandeira dos 20 centavos (e notem que ele é ponto de honra dos valentes, que não aceitam negociar) é um ensaio do que entendem ser — e com apoio de muitos pensadores ditos alternativos — a democracia direta, sem a mediação de autoridades eleitas, de instituições, do Parlamento, de partidos.

UMA NOTA ANTES QUE AVANCE

O repúdio a bandeiras de partidos políticos, que a tantos encanta, a mim causa preocupação. Eu não tenho nada contra a existência de partidos. Ao contrário! Posso esculhambar impiedosamente aqueles de que discordo, mas ainda não se conseguiu inventar uma maneira melhor de se articularem as diferenças. Eu abomino quem imagina que pode ocupar a cidade, da forma como lhe der na telha, sem prestar satisfações a ninguém, e ainda se sente no direito de forçar o outro a enrolar a sua bandeira. Esse ódio à política é burro, é obscurantista, é ingênuo.

A questão, é bom que fique claro, não é de conteúdo — porque não é mesmo; seria ridículo imaginar toda essa movimentação por causa de 20 centavos — mas de método. Nesse caso, forma é conteúdo. Não! Não são apenas os vândalos que afrontam a noção mais comezinha de democracia. Também os que são chamados de “pacíficos” entendem que podem violar a Constituição sem dever satisfações a ninguém. Eles se negam até a negociar.

CAIXA DE PANDORA

Usei aqui a imagem da Caixa de Pandora desde o primeiro dia, como vocês sabem. Estão é tirando a tampa do vale-tudo. Como observou de forma luminosa a professora Janaina Paschoal, assistimos ao encontro do “construtivismo com território livre”. Há nisso, é certo, um traço de classe social também. Se eu tivesse de juntar um terceiro elemento, acrescentaria as “aulas de humanas” de “professores progressistas” das… escolas particulares! Essa gente carrega, do berço, a noção de que a lei que vale para os outros não pode atingi-la. Foi cevada na cultura do “tudo é permitido e todo ‘não’ é uma violência”. E foi instada pelos barbudinhos a “mudar o mundo” e a sair de sua zona de conforto e “lutar pelo oprimido”. Aí, meus caros, basta lutar para assaltar o céu.


Esses são traços do microcosmo. Junte-se a isso a cultura que se vai consolidando entre nós de que o estado é o grande provedor de tudo, de que a direitos não correspondem deveres e de que as leis, a exemplo do que se verifica hoje com outros ditos “movimentos sociais”, não pode alcançá-los, e temos o que se vê aí. “Ah, mas eles também são contra a corrupção!” Que bom! Só faltava que falassem a favor, não é? “Ah, mas eles querem menos estádio bonito e mais hospitais…” Lamento! Essa não é uma permuta que faça sentido orçamentário, político ou administrativo. A formulação traduz ignorância. Mas sei que a democracia também existe para os ignorantes. Ok! Mas não pode permitir que os autoritários se imponham.

 

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